terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Capítulo 26 “Que estão a fazer? Estão a fazer-me um sobrinho?”


-Peço imensa desculpa! – Disse envergonhada. –Entre, entre... – Abriu a porta e deixou a senhora entrar. –Coloque-se à vontade enquanto eu vou só acordar o seu filho.

-Deixa-o descansar querida. – Pediu. –Assim posso aproveitar para trocar umas palavras com a minha nora. – Rita sentiu-se ainda mais envergonhada do que quando fizera a viagem no autocarro com os colegas de Fábio, mas será que todas pessoas da vida dele já sabiam da sua existência?!

Teresa sentou-se na ponta do sofá da sala fazendo com que Rita se sentasse na ponta oposta. Sentia-se desconfortável e não sabia ao certo o que dizer à mãe de Fábio... Ela gostava dele mas não era suposto a mãe dele saber ou era?

-O Fábio já me falou muito de ti minha querida. – Olhou para ela e colocou as mãos sobre as mãos da jovem rapariga.

-Fico muito contente por saber isso! – Sorriu.

-Minha querida não precisas de ter vergonha de falar comigo, eu só quero conhecer melhor a rapariga que roubou o coração do meu filho.

Rita sorriu, simplesmente não conseguia esconder o sorriso, ele tinha dito isto à mãe?

-É com muito orgulho que respondo que o seu filho também roubou o meu.

-Fico contente por saber isso! E como mãe só te posso agradecer por teres aberto os olhos ao meu filho e por tê-lo feito mudar para um homem ainda melhor!

-Dona Teresa, eu não mudei o seu filho. O seu filho é que quis mudar. – A mãe do jovem sorriu, Rita era assim tão humilde que nem queria assumir que havia mudado a vida dele de forma tão sentimental e humana, ela era a principal impulsionadora para ele se tornar um homem melhor com tudo o que isso acarretara.

-Desde que o Fábio me falou de ti que percebi que eras boa pessoa mas depois de trocar alguns dedos de conversa contigo entendo que ele não poderia ter escolhido melhor.

-Muito obrigada! Também tenho de lhe dar os parabéns porque o seu filho além de ser um enorme jogador, é uma enorme pessoa e um enorme homem, não só porque quis mudar mas também devido à excelente educação que lhe deu, tem princípios, consciência e maturidade, o que é difícil encontrar, infelizmente, hoje em dia, dona Teresa.

-Muito obrigada também eu! – Deu um beijo na bochecha de Rita. –E não precisas de tratar-me por dona e muito menos por “você”, prefiro que me trates pelo meu primeiro nome e que me trates por tu querida, não sou assim tão mais velha que tu!

-Desculpe mas isso não sou capaz de o fazer... Não consigo tratá-la por “tu” porque me sinto faltar-te ao respeito e a ser mal educada, é mais velha que eu e simplesmente devo-lhe respeito, não só enquanto mãe do Fábio como enquanto adulta. O dona posso prometer que tento, não prometo é que consiga. – Sorriram. –Desculpe, mas não lhe perguntei... Deseja comer alguma coisa ou beber?

-Querida, não sou assim tão velha que não possa ir fazer isso sozinha!

-Sim, mas tenho de tratá-la de forma ainda mais especial não quero que fique desiludida comigo!

-Isso era impossível! – Ouviram a voz de Fábio a entrar na sala. –Como é que duas pessoas que amo tanto podiam não gostar uma da outra? Eu tenho um excelente bom gosto! – Sentou-se entre as suas “duas mulheres”.

-Olá filho! – Cumprimentaram-se com dois beijos e um grande abraço. –Estava a conhecer a minha futura nora a tentar ver se marcava uns pontos por ti!

-Não precisa dona Teresa! – Exclamou Rita. –O seu filho não precisa de me conquistar mais, o meu coração é todo dele! – Fábio deu-lhe um beijo na testa. –A nossa relação não se torna mais oficial não é por culpa dele, muito pelo contrário, ele é bestial, é por minha culpa, por acreditar nas pessoas erradas e desconfiar das certas!

-Eu também te dei motivos para desconfiares desde o princípio mas mesmo assim tu soubeste-me dizer que não e pores-me um limite e um travão e eu apaixonei-me por esse teu lado autoritário mas também pelo teu lado carinhoso, a tua relação com a nossa afilhada Di mas também com o teu irmão Pedrito e ainda por cima depois do dia difícil de hoje...

-Também foi difícil para ti, mas o meu irmãozinho está a olhar por ti lá do céu!

-Minha querida, sei que pode ser difícil a morte de um ente querido, mas apesar de não saber se és crente em Deus ou não, mas ele agora está num local melhor, está em paz!

-Não digo que seja fácil porque não é, mas nada é impossível quando a alma não é pequena, como dizia e bem Camões! Eu sei lidar com o que sinto e com a dor que me vai na alma mas o problema vai ser dar a notícia ao meu irmão mais pequenito... Tenho medo da reação dele.

-O Pedrito tem quantos anos querida?

-Seis aninhos. Sei que não tenho de ser eu a dar notícia, mas com a minha mãe está internada no hospital e o meu pai a acompanhá-la e não quero sobrecarregar a minha irmã e o meu cunhado que ainda por cima já têm a minha sobrinha, sobra apenas para mim dizer-lhe.

-O meu conselho para ti, e com experiência visto que este rapaz já teve seis anos. – Sorriu a olhar para o filho. –É ires buscá-lo à escola mais cedo do que é normal e darem-lhe a notícia de forma sincera e direta, depois levam-nos a sítios que ele gosta, como por exemplo ir jantar fora, irem ao parque e mais algumas coisas, vocês de certeza conhecem-no melhor que eu!

-Tem toda a razão do mundo! Fábio então vemo-nos amanhã certo?

-Não Rita, se alguém tem de se afastar sou eu que vim em má altura! – Respondeu a mãe de Fábio.

-Nem pensar nisso mulheres! Vamos os três buscar o Pedrito e dar-lhe um excelente dia! – Concluiu Fábio e com esta ideia de Fábio nenhuma conseguiu recusar, antes pelo contrário, acharam que era o melhor para todos.

-Deixem-me só avisar a minha irmã.

Rita afastou-se um pouco e entrou em contacto com a irmã, avisou-a que iria buscar o irmão e dar-lhe a terrível notícia mas sabia que tinha de o fazer, era o melhor.
Por sorte Fábio já tinha uma cadeirinha para Pedrito no seu carro, por isso foi só entrarem para o carro e seguirem o trajeto até à escola primária do pequeno onde ele estava a ter aulas. Rita acabou por explicar à professora e à funcionária que abrira o portão da escola a razão para ir buscar o irmão e depois de o ter junto de si deu-lhe um enorme beijo e um ainda maior abraço:

-Mana porque me vieste buscar?

-Vamos até ao carro, meu amor.

Quando chegou à porta da escola Pedrito ficou reticente, ao contrário da irmã era um rapaz bastante introvertido e acabou por não se sentir à vontade para cumprimentar a mãe de Fábio. Escondeu-se atrás das pernas da irmã até que ela o apresentou:

-Pedrito. – Olhou para ele. –Não precisas de ter vergonha, senão fosse aquela senhora não havia este rapaz aqui. - Apontou para mãe e filho e Pedrito acabou por ceder, cumprimentou primeiramente Fábio depois a sua mãe.
Caminharam juntos até ao parque infantil que se encontrava nas traseiras da escola primária e sentaram-se no chão, enquanto Fábio e Teresa sentaram-se no banco à frente deles.

-Queres que seja eu? 

-Não, quero ser eu a fazer isto. – Respondeu a Fábio. Fez com que Pedrito se sentasse no seu colo e aconchegou-o.

-Não sei como te dizer isto... Mas aqui vai: O bebézinho que estava na barriga da mãmã já não vai nascer.

-Então mana?

-A mãmã teve um acidente e o bebé morreu.

-Vocês mentiram-me? – Perguntou chocado e magoado.

-Não, meu bem. A mãmã estava grávida mas teve um acidente e o bebé morreu.

-Então o bebé fez mal à mãmã?

-Não, mas a mãe teve um acidente e o bebé não aguentou a dor e foi para o céu. Mas a mãmã está bem.

-Então o bebé estava a fazer mal à mãe e acabou por morrer?

-Não, meu amor. Eles tiveram o acidente, aconteceu, não foi culpa de ninguém e estavam ambos a sofrer e o mano como era boa pessoa e um anjinho decidiu parar o sofrimento e foi para o céu, assim tanto ele como o mãe ficaram em paz.

-E onde está a mãe? E o pai?

-A mãe está no hospital para os médicos tomarem conta da mãe e verem se ela fica bem e o pai está com ela.

-E a mana Ana? E o Rúben e a Di?

-A Diana está na escolinha, ainda é muito pequenina para perceber isto, a Ana e o Rúben estão a acalmar os pais.

-Então já não vou ter de partilhar o quarto? Nem companhia para jogar à bola?

-Tens-me sempre a mim, meu pequeno! – Disse Fábio enquanto pegava em Pedro ao colo.

-Eu queria um mano mais pequenino, tu ganhas-me sempre!

-Na Play Station nem me dás hipóteses! – Disseram a brincar.

-Tu e a mana têm de me dar um primo! – Sorriram.

-Se eu e a tua mana tivermos um bebé não vai ser teu primo mas sim teu sobrinho, como a Di!

-Ah está bem! Queres ir brincar comigo?

-Vamos! – Fábio e Pedro começaram a correr e a brincar enquanto Rita se sentou ao lado de Teresa.

-O pequeno até reagiu melhor do que estava à espera. O teu irmão é muito forte!

-Ele parece muito frágil mas no fundo é muito forte, ainda há pouco tivemos a prova! – Sorriram. – Mas obrigada pelas palavras, fico muito orgulhosa!

-Querida, posso pedir-te um favorzinho?

-Se a puder ajuda, assim o farei, diga.

-Senão te importares gostava de poder falar com a tua mãe e dar-lhe uma palavra de força e apoio, sei que não a conheço mas gostava muito de fazê-lo.

-A minha mãe precisa de todo o apoio e mais algum neste momento por isso agradeço-lhe o gesto, apesar de não saber ao certo como ela vai reagir.

-Minha querida. – Pousou a mão sobre a mão de Rita. –Compreendo e aceito qualquer uma que seja a tua decisão e sei que irás fazer o mais acertado.

-Vou arriscar. – Respondeu respirando fundo. –Mal não irá fazer. Só lhe posso agradecer, conheceu-me hoje e já tem sido mais incansável que outros amigos.

-Querida, faço-o do fundo do coração. Não é por seres amiga e futuramente namorada do meu filho, acredita que não, é porque és uma rapariga com um enorme coração e estás a atravessar um momento difícil e até porque tens de parecer forte, até para manteres a família forte e unida e como tal podes contar com o meu apoio para todos os momentos até quando te sentires mais frágil. – Rita não conteve a emoção e abraçou Teresa.

-Não sei como lhe agradecer por tudo! – Disse emocionada.

-Que é que as minhas princesas estão a falar?

-Meu amor. – Rita falou para Pedrito. –Queres ir ver a mãmã?

-Shim! E será que a mãmã quer ver-me? Ou será que eu vou lembrar o mano que está no céu?

-Pequenito, a mãmã vai ficar surpreendida por ver-te e acredita que vai agradecer-te e encher-te de beijos! – Respondeu Fábio. –Tu vais pôr a mãmã a sorrir não vais?

-Claro que sim! Depois pudemos ir passear na mesma?


-Claro meu tesouro! – Rita deu-lhe um beijo na testa e pegou-lhe ao colo.

Entraram para para o interior do carro e seguiram até ao hospital, mas ao contrário de todos, Fábio ficou na entrada do hospital, Rita estranhou a sua atitude mas nada questionou, talvez ele não estivesse preparado para enfrentar a sua mãe, ela tinha de se recordar que ele nunca vivera na pele uma morte e também para ele estava a ser difícil lidar com todos os sentimentos daquele dia.

-Dona Anabela, eu sei que o Fábio nunca tinha lidado com a morte antes e isso preocupa-me, tenho medo que ele possa estar a esconder o que realmente sente.

-Ele nunca tinha lidado com a morte antes e eu percebo apenas de olhar para ele que a morte do teu irmão o afetou, mas logo fala com ele, obriga-o a desabafar, ele confia em ti e se quiser falar ele assim o fará, ele não consegue guardar aquele que sente durante muito tempo.

-Com todo o respeito... Teresa. – Hesitou. Estava a fazer um esforço para a tratar pelo primeiro nome e não por "dona", antes do seu nome, mas não conseguia deixar de sentir faltar ao respeito. –Dona Teresa, quero eu dizer, mas será que ele não se sentiria mais à vontade para falar consigo?

-Até pode sentir-se à vontade para desabafar comigo, mas infelizmente eu volto ainda hoje para Águeda.

-Esperava que ficasse cá mais tempo...

-Não, hoje consegui ter uma tarde livre e vim, mas amanhã já há trabalho.

-Tenho pena mas espero pela sua visita mais vezes, será recebida da melhor forma possível!

-Obrigada minha querida, e acredita que para a próxima trago o meu marido para te conhecer, ele está ansioso!

-Espero não a ter desiludido e espero não desiludir também o seu marido!

-Não o farás querida!

Depois de aguardarem mais alguns minutos acabaram por entrar no quarto onde estava Maria, que ficou surpreendida por vê-los, mas em simultâneo feliz. Não tinha como esconder a tristeza, apesar do bebé ainda morar no seu ventre, já não era um pequeno ser vivo. Maria estranhou também a ausência de Fábio, afinal o rapaz era como se fosse da família, mas respeitou qualquer uma que fosse a sua decisão, sabia que ele estava a apoiar a filhota que parecia aceitar minimamente bem a notícia, mas no fundo a realidade não era essa. Trocou também alguns dedos de conversa com Teresa, afinal eram “comadres” como gostavam de se apelidar, que também lhe deu alguns conselhos em relação a lidar com esta notícia, nunca tinha vivido na pele mas já havia vivido mortes de familiares próximos e soube dizer as palavras certas, assim como fez Fábio a Rita, mas Maria estava cansada e por isso a visita não durou muito tempo, decidiram deixá-la descansar e saíram do quarto.

-Rita. – Abraçou-lhe Pedro. –O Fábio contou-me o que se passou com o teu irmão e com a tua mãe e vim logo para aqui. – Deu-lhe um beijo na bochecha. –Estou disponível para ti 24 horas por dia e especialmente hoje, vou juntar-me ao Fábio e à mãe dele para te apoiar e ao Pedrito. – Mexeu-lhe no cabelo.

-Obrigada, mas acho que a minha mãe precisa mais de apoio que eu.

-Ambos sabemos que isso não é bem assim. – Disse-lhe ao ouvido. –Tu também precisas de apoio e eu estou aqui para te apoiar.

-E estás disposto a conviver com o Fábio por minha causa?

-Tu vales a pena o esforço. – Respondeu-lhe em sussurro, ainda durante o abraço.

-Rita, posso ir visitar a tua mãe? Gostava de lhe dar uma palavrinha de apoio. - Perguntou Fábio.

-Ela perguntou por ti. – Respondeu. –Ela está cansada mas de certeza que vai gostar de te ver.

-Posso entrar também? Gostava de dar uma palavra à dona Maria. – Perguntou Pedro.

-Claro! A minha mãe vai ficar muito feliz por vos ver! – Respondeu calmamente e ambos acabaram por entrar no quarto onde estava a mãe da amada.

Depois de esperarem alguns minutos, Pedro e Fábio saíram do
quarto e apesar de Rita saber que eles estavam a fazer um
esforço para proporcionarem um bom dia a si e ao meu irmão,
tinha medo que começassem a discutir ou que algo não corresse
bem.

-Meu bem queres ir até onde? – Perguntou Rita fazendo a sua mão deslizar pela face de Pedrito.

-Pudemos ir até à praia mana?

-Pudemos Fábio, Pedro e dona Teresa?

-Sim! – Responderam em coro.

Enquanto Pedro foi no seu carro até casa mudar de roupa, os restantes foram até casa mudar de roupa. Teresa teve de usar emprestado um fato de banho da mãe de Rita, enquanto Pedrito vestiu o seu, Rita experimentou vários diferentes.

-Posso entrar? – Perguntou Fábio vendo a porta encostada.

Rita respondeu que sim enquanto apertava a parte superior do biquíni, bem próximo do pescoço.

-Podes apertar aqui o biquíni senão te importas?

-Claro que não me importo tonta! – Deu-lhe um beijo no pescoço e colocou as mãos sobre a barriga dela, fazendo-a virar-se para si. –Queres saber uma coisa?

-Vou ter de mudar de biquíni, eu sei... – Confessou com a auto-estima em baixo.

-Para mim és e estás perfeita! – Beijaram-se intensamente, como que aquele beijo demonstrasse o amor e a paixão que existia entre eles.

-Mana? – Perguntou Pedrito interrompendo o beijo. –Que estão a fazer? Estão a fazer-me um sobrinho?

Que é que Fábio e Rita irão responder?
Como irá ficar Pedrito? Como correrá o dia na companhia de Pedrito, Anabela e Pedro?

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Capítulo 25: “Por mais longe que estejam, os que mais gostamos estão sempre perto do coração”


Rita não reagiu. O seu sorriso desaparecera mas dera lugar a uma indecifrável reacção, nenhuma lágrima rolou pela sua face e nem deu voz a uma única palavra, estava pálida e ficara branca como cal. Aquela (falta de) reacção assustava Fábio, nunca vivera na pele a morte de alguém de quem era próximo e não sabia o que fazer, acabara também de descobrir o sentimento e não conseguia traduzi-lo. Aquele pequeno feto não era da sua família, mas Fábio sentia-se próximo dele, era como um sobrinho que não tinha, como um pequeno irmão que os pais não lhe deram a oportunidade de ter, e aquelas emoções eram indecifráveis... Era uma perda e como sempre lhe disseram as perdas nunca são fáceis de lidar. Mas ia esconder os sentimentos e os pensamentos para poder tranquilizar Rita, ela precisava dele e da sua amizade, mais do que nunca e ele tinha de ser forte por ambos, ele era mais do que nunca, o seu apoio e a sua força. Ele tentando, transmitir forças sem falar, apertou-lhe a mão mas ela não lhe reagiu. Rita nada fazia, estava branca como cal e nada mais poderia fazer Fábio além de esperar.
Luís, sem energias caiu no chão e assim ficou chorando compulsivamente, ele acabara de perder um filho. Um filho que apesar de ainda estar no ventre da mãe não deixaria de ser o seu pequeno bebé, aquele bebé era a esperança da família Madeira, era ele que tinha unido os pais e tal como um anjo depois de fazer o seu objectivo predominante na Terra, aceitou o seu destino tranquilamente e foi para o céu. Ana tentava fazer com que o pai controlasse as suas lágrimas mas ela própria sabia que depois de os deixar iria chorar aquela perda, nunca reagira bem a mortes e daquela vez tentava como sempre, e como reagira Rita, ser forte. O cunhado, Miguel tentava juntamente com a esposa, Diana oferecer apoio ao sogro mas sabiam que por muitas palavras que dissessem nunca iriam ajudar o suficiente para ele parar de chorar, apenas com o tempo iria aceitar a perda do filho.

Fábio sentiu a sua mão a ficar apertada, Rita começava a reagir, olhou para ela e a sua respiração estava descontrolada, sentiu-se preocupado e falou com ela tentando entender o que se passava ao certo para poder ajudá-la:

-Pequena, que tens? – Ela nada respondera, parecia que a respiração estava a escassear e ele pegou nela ao colo e levou para o exterior do hospital. Pousou-a no chão e com as mãos tentou dar-lhe ar, talvez assim ela recuperasse, passado alguns minutos a respiração acalmou e ele conseguiu perguntar. –Estás melhor Rita?

Rita abanou positivamente a cabeça, mas no fundo sentia-se sufocar com aquela notícia. Por sua culpa tinha perdido o irmão. A mãe tinha-lhe oferecido boleia até à escola e ela recusara. Se tivesse aceite, a mãe atrasar-se-ia a sair de casa e o acidente não teria ocorrido. Sentia-se culpada e essa dor feri-a mais do que a dor de perder o irmão. Fábio apertou-lhe a mão e ela retribuiu, e pela primeira vez olhou-o nos olhos... Ele assustou-se, os seus olhos estavam secos e demonstravam uma expressão assustadora, parecia que o brilho que existia sempre no olhar dela desaparecera, que a sua alegria tivesse desaparecido com a notícia e ele sentia-se impotente por não saber o que fazer, amava-a mas tinha medo de não ter a atitude adequada para ela, que as suas atitudes não demonstrassem o que realmente sentia por ela e que não fosse a pessoa que ela precisasse neste momento tão difícil.

-Fábio, posso pedir-te um favor? – Disse Rúben aproximando-se deles.

-Sim, claro diga-me. – Perguntou Fábio sem nunca afastar a sua mão da de Rita, tentando tranquilizá-la com aquele pequeno gesto.

-Estive a falar com a Ana e com o senhor Luís e este ambiente não faz nada bem à Ritinha... E além do mais não iria ficar cá a fazer nada. Não te importes de a levares a passear para arejar? – Fábio olhou para Rita como que perguntando a sua opinião, ela não respondera com nenhum gesto apenas olhou para ele e conseguiu decidir através daquela pequena troca de olhares.

-Claro que não, talvez assim também a ajude a reagir..

-Obrigado. Em meu nome e em nome desta família, obrigado por estares aqui e pelo que tens vindo a fazer e estás a fazer pela nossa pequena.

-Obrigado eu por me terem dado a sorte de conhecer a Ritinha e por ter-vos a todos, sem excepção, na minha vida.
Fábio agarrou na cintura de Rita e fê-la levantar-se do chão onde estava sentada, ela levantou-se a muito custo e seguiram até ao carro dele. Ele colocou-lhe o cinto e de seguida sentou-se no volante, mas antes disse:

-Não é fácil para ti e acredita quando te digo que também não o é para mim, mas se o teu irmão sobrevivesse, provavelmente tanto ele como a tua mãe estariam em sofrimento e assim estão ambos em paz, sei que custa ouvir mas talvez assim seja o melhor para ambos.

-Não sei lidar com este sentimento... – Pela primeira vez desde que souberam a notícia, Fábio conseguira ver uma reação em Rita. –É o sentimento de impotência, de culpa, o sentimento de perda e de revolta. É o meu irmão... Não posso simplesmente perdê-lo como do dia para a noite. – Escondeu a cara com as mãos.

-Ritinha. – Colocou a mão sobre a saia dela. – Sabes qual é a melhor cura para as tristezas? Baldes de gelado, pacotes de gomas e bolos, muitos, muitos bolos!

Rita sorriu e foi quanto bastou para ele ligar o carro e começar a seguir o seu caminho mas em vez de seguir o seu caminho para casa, fez um pequeno desvio, o que foi o suficiente para ela perguntar:

-Vamos onde pequeno?

-Sou enorme fica sabendo? – Disse sorrindo. –Um jogador da bola não pode ter tantas porcarias dessas em casa, vamos ás compras!

-Até parece que não tens vários tipos de gomas em casa.

-Eu compro vários pacotes e estilos de gomas mas elas durarem lá em casa sabes que não é verdade.
Fábio estacionou o carro na garagem daquele centro comercial e saíram do interior do carro e ele aproximou-se dela e cruzaram os seus dedos e começaram a percorrer o caminho até ao supermercado.

-Olá Fábio, à quanto tempo não te via! Que andas a fazer tão bem acompanhado? – Perguntou um rapaz com quem se cruzaram no corredor daquele centro comercial.

-Olá Daniel, não tenho andado muito por aqui, tenho mais ficado em casa com a minha namorada. Rita é o Daniel, Daniel é a Rita.

-Boa tarde. – Cumprimentou Rita afastando os potenciais dois beijos que Daniel queria trocar.

-Estão juntos há muito tempo?

-Sim, há algum.

-Então têm passado muito tempo em casa, vê lá se não tens algum percalço...

-Daniel, podes estar descansado que se acontecer alguma coisa não te irei pedir nada. – Respondeu Fábio, enquanto Rita sentia-se incomodada com a presença daquele rapaz e com as perguntas feias que ele fazia, acabaram por se despedir e continuar o seu percurso. –Desculpa Rita, não queria que conhecesses este tipo de pessoas, que já considerei amigos. Eu era uma pessoa diferente, e tudo o que eu era mudou, desde que te conheci que sou diferente.

-Eu não fiz com que tu mudasses, tu é que o quiseste fazer. – Respondeu serena. –Tu arranjaste em mim mais que uma amiga, arranjaste em mim um amor.

-E quero estar contigo para sempre, sou feliz contigo a meu lado e acho que não conseguiria já viver sem ti.

-Claro que conseguirias, tu viveste sem mim dezanove anos, conseguirias viver ainda mais.

-Eu sobrevivi sem ti, viver só aprendi a teu lado.
Pela primeira vez, Rita olhou para ele e tomou coragem para o beijar, estava apaixonada e já não haveria dúvidas, mas não conseguia iniciar uma relação com ele, tinha medo que Fábio se deixasse “encantar” por outra rapariga, ainda estava magoada com o que Tiago lhe tinha feito, precisava de tempo para o conseguir dizer, mas iria fazê-lo, eles sabiam.
Foram até ao supermercado e compraram os mais variados doces, vários pacotes de gomas, de pipocas e de bolos e foram até à caixa, e o primeiro olhar que a rapariga da caixa fez a Fábio incomodou-a bastante e olhou-a de volta.

-Olá Fábio. – Disse a rapariga.

-Olá Filipa. – Respondeu ele, enquanto Rita o olhava.

-Como estás?

-Estou bem, obrigada. – Respondeu de forma seca.

-Também estou bem, obrigada. – Disse apesar dele não ter devolvido a preocupação. –Eu liguei-te e mandei mensagem e tu nem respondeste, desapareceste.

-Talvez porque não queria que me incomodasses. – Rita olhou para ele surpreendida com a forma com que ele falara.

-Credo Fábio, tu não eras assim! Fiz-te alguma coisa?

-Filipa esquece tudo o que se passou, eu fiz o mesmo. – Deu-lhe algum dinheiro e virou costas e foi embora. –Podes ficar com o troco.

-O que se passou entre ti e esta rapariga? Vocês já se tinham envolvido não já?

-Sim, curtimos à uns meses mas eu acabei tudo mas pelos vistos ela não percebeu.

-E porque não o quiseste fazer?

-Estou bem e feliz contigo, meu bem. É a ti que te amo. – Deu-lhe um beijo na testa e continuaram o caminho de mãos dadas.
Quando chegaram a casa Rita já tinha aberto um pacote de gomas e tinha partilhado com Fábio e já o tinham acabado, decidiram que o melhor era irem até casa dele e sentaram-se em cima da cama rodeados de todas as guloseimas que haviam comprado. Fábio abriu as pernas e Rita sentou-se entre elas e pousou a cabeça e a mão direita sobre o seu peito.

-Ritinha. – Ela ergueu a cabeça e olhou para ele. –Sei que amavas este pequeno bebé como amas o Pedrito e a Ana e que esta perda te abalou muito e gostava de saber o que te dizer, mas não imagino qual é a dor de perder alguém que amamos e por isso não sei, e imagino que não haja palavras que te façam animar ou que te possam ajudar a ultrapassar. Tu és forte, muito forte, mais do que pensas e já ultrapassaste muitas dificuldades e com sucesso, e não quero que te chateias com o que vou dizer mas que tentes compreender. Não quero que te sintas culpada pelo que aconteceu, porque nunca o serias, se existe um culpado sou eu. – Rita queria interrompê-lo para o defender mas entendeu que existia uma explicação para o que ele dizia. –Talvez o teu irmão pequenito fosse um anjo da guarda que tinha apenas como objectivo vir à Terra para reunir novamente a família Madeira e depois de cumprir a sua missão acabou por partir, ele está em paz neste momento. Se ele tivesse ficado aqui, provavelmente estaria em sofrimento assim como a tua mãe, e mesmo na hora da morte foi caridoso, porque para a tua mãe não ficar em sofrimento decidiu partir e ficarem ambos bem. Por mais longe que ele esteja, os que mais gostamos estão sempre perto do coração, como me ensinou e bem a minha mãe e é com esse ensinamento que quero que penses. O Bernas ou a Clarinha estão agora a olhar por vocês no céu e vai sempre torcer por vocês e a ajudar todos os que gostam dele lá do céu. – Rita chorava imenso ouvindo as palavras que Fábio dissera, talvez ele tivesse razão e tinha de aceitar, em paz, aquelas palavras e encarar a realidade. Se o irmão tivesse sobrevivido, tanto ele como a mãe estariam em sofrimento e assim estariam ambos em paz.

-Nem tenho palavras para te agradecer... – Hesitou. –Tu nunca passaste a dor de perder alguém que amas mas soubeste exactamente as palavras certas para me dizer, para tranquilizares o meu coração. Além de seres o meu amor, és o meu melhor amigo. – Deu-lhe um abraço apertado. -Sei que a mim me magoa e vai magoar sempre um bocadinho, mas ao Pedrito vai custar imenso. Ele já estava a pensar partilhar o quarto com ele, jogarem futebol, ele tinha os planos todos pensados e agora não vai poder cumpri-los, porque o irmão simplesmente agora é um anjo.

-Nos próximos tempos, tu e a tua irmã vão assumir um papel ainda mais importante na vida do Pedrito, porque os teus pais vão precisar de aceitar tudo, mas vocês não estão sozinhas, têm a mim e ao Rúben.

-Adoro-te! – Abraçou-o com força. –Obrigada por estares aqui e por estares na minha vida. – Aconchegou-se no peito dele e permaneceram em silêncio durante uns segundos. –Sei que ás vezes não demonstro o quanto gosto de ti, mas eu adoro-te. Do fundo do meu coração. Só que eu ainda me sinto insegura. O Tiago magoou-me muito, ele desiludiu-me e destruiu-me o coração e tu ajudaste-me a recuperar, é verdade, mas só com o tempo vou perdoar o que ele fez e aceitar. Só te peço para me dares tempo, por favor. – Fábio beijou-a na testa.

-Ritinha, meu bem, eu vou dar-te todo o tempo que quiseres e precisares. O que o Tiago te fez foi mau demais mas o mal que ele te fez, eu vou-te dar em duplicado, porque o que sinto por ti é mais que uma amizade, é um amor. Eu amo-te. – Ela sorriu e beijou-o, apesar dela não dizer que o sentimento era recíproco ele sentiu-o e isso era o mais importante. Encostou a cabeça no peito dele e adormeceram pouco depois. Tinha sido um dia cansativo e cheio de emoções e ainda tinham de arranjar forças para dar a notícia ao pequeno Pedrito e precisavam das palavras certas para lho dizer.

(Passado algumas horas)
Rita acordou com o som da campainha a tocar, queria acordar Fábio afinal a casa também era dele mas o instinto fê-la acordar e ir abrir a porta. Espreitou pelo buraco da porta e era uma senhora. Não a reconhecia mas também não lhe causou ciúmes. Era uma senhora de meia idade, talvez uma tia dele, não sabia. Hesitou, talvez devesse ir acordar Fábio e ele abrisse a porta mas até então ela iria embora. Abriu a porta e cumprimentou com as boas-vindas.

-Boa tarde. – Disse claramente envergonhada.

-Boa tarde querida. Posso entrar?

-A casa não é minha... E o Fábio está a dormir. Pode-me dizer quem é?

-Teresa Antunes, mãe do Fábio. – Rita, não sorrira naquele dia e depois de ouvir as palavras “mãe do Fábio” gelou, tinha conhecido a mãe do seu melhor amigo e do seu futuro namorado e não sabia o que fazer.

Como se irá desenrascar Rita?
Como correrá o encontro com a mãe de Fábio? E como irão contar a notícia a Pedrito?

domingo, 30 de novembro de 2014

Capítulo 24 “Eu também gosto dele. O problema é esse.”


-Fábio rápido, esconde-te debaixo da cama. – O rapaz baixou-se e encolheu-se para se esconder debaixo da cama.

-Rita já estás acordada? – Perguntou o pai da jovem entrando no quarto e por segundos não se cruzou com o futuro genro.

-Sim pai. O despertador decidiu tocar mais cedo. Como estás?

-Estou bem e tu? Que é que fazes com essa roupa?

-Foi o Fábio que me deu pelos anos.

-A sério? E porque te deu uma roupa dele?

-Porque lhe disse que gosto de dormir com roupas de rapazes e me sinto super confortável. E ele decidiu dar-me esta roupa.

-Ah está bem, mas não tiveste calor com isso?

-Não, até dormi bastante confortável.

-Então despacha-te para teres boleia.

-Pai, estou cansada por causa de ontem. Posso ficar a dormir mais um bocadinho e depois vou para a escola?

-Podes, mas não é para ficares todo o dia na cama! Só faltas ás primeiras duas aulas! Queres que te venha buscar para te levar à escola ou vais de mota ou a pé?

-Vou bem a pé, descansa.

-Tens a certeza? E o teu pé?

-Estou recuperada senão o médico não me tinha deixado andar sem muletas não achas pai?

-Sim. Tens razão. – Sorriram. –Mas é melhor ires de mota, para não esforçares demasiado o pé. E senão te sentires á vontade liga-me e eu levo-te á escola.

-Se o pé me tiver a doer, vou tocar ao Fábio e ele leva-me descansa.

-Deixa lá o pobre rapaz descansar que ontem o jogo deve ter sido difícil e cansativo.

-Pronto, eu não o chateio! – Sorriram. –Vou dormir mais um bocadinho. Até logo pai! – Deu-lhe um beijo e voltou a deitar-se na cama. O pai saiu do quarto e ela sussurrou. –Fábio, deixa-te estar aí escondidinho que a minha mãe e o meu irmão ainda são capazes de cá vir. – Pedrito entrou no quarto.

-Oh mana estavas a falar com quem?

-Estava a pensar em voz alta, meu amor. – Pedro aproximou-se da irmã e deu-lhe um beijinho.

-Logo vais-me buscar à escola com o Fábio?

-Não sei se vou estar com o Fábio hoje à tarde Pedrito. Ele também precisa de descansar do jogo de ontem e de mim.

-Vá lá mana!

-Está bem meu amor. Mas agora vai lá para a escola para não chegares atrasado.

-E tu não vais para a escola hoje mana?

-Vou, mas vou daqui a um bocadinho, vou descansar mais um pouquinho.

-Está bem! Mas vai pedir ao Fábio para te levar á escola por causa do pé!

-Está bem, está bem meu bem. – Deu-lhe um beijo na bochecha. –E se ele não me quiser levar?

-Diz-lhe que eu mandei ele levar-te. – Pedrito deu-lhe um beijo na bochecha e foi-se embora do quarto.

-Já viste isto? Um fedelho com 6 anos a pensar que manda em ti!

-Na Play Station ele manda em nós!

-Fala por ti menino! Anteontem joguei com ele e ganhei-lhe!

-Tu ganhaste ao Pedrito? – Tirou a cabeça de debaixo da cama e olhou para Rita. –Tens a certeza que não estavas a sonhar?

-Sinceramente não sei. – Pousou a mão sobre o queixo pensativa. Ouviu-se alguns passos sobre o corredor e Fábio voltou a esconder-se.

-Filha deixei-te o batido em cima da bancada, e um lanchinho para meio da manhã. Descansa mais um bocadinho e depois vai beber, não quero que vás para a escola sem nada no estômago, muito menos agora que ainda estás fraca por causa do pé.

-Mãe, já estou recuperada do pé, descansa.

-Uma mãe está sempre preocupada, ainda para mais grávida. Não vás para a escola a pé, deixei-te algum dinheiro ao pé do batido, vai de autocarro ou de táxi. Sim, para não incomodares o teu motorista particular, Fábio.

-Sou uma pessoa privilegiada por ter um motorista particular tão bonito não achas mãe? – Sorriu, lembrando-se certamente que ele estava encolhido e devia de estar pouco confortável debaixo da cama, escondido. Mas sabia que ele iria sorrir com a clara provocação dela.

-Na minha opinião é mais bonito por dentro que por fora. Filha, ele gosta realmente de ti, não o magoes.

-Não o vou fazer mãe, prometo.

-No fundo tu também gostas dele, não gostas? – Rita respirou fundo ganhando coragem para responder, era a primeira vez que o diria em voz alta e queria declarar-se com as palavras certas.

-Sim mãe, eu também gosto dele. O problema é esse.

-Filha, gostar nunca é um problema. É uma bênção alguém gostar de ti e o sentimento ser recíproco, principalmente quando essa pessoa é bem formada, bem-educada e boa pessoa. Se tens medos e receios fala com ele, porque pode existir esse sentimento mas vocês são amigos e ele vai ajudar-te a ultrapassá-los.

-Obrigada mãe! – Rita abraçou a mãe e pousou a mão sobre a barriga dela. –E tu maninho quando saltares cá para fora vais ter o prazer de conhecer o teu grande amigo.

-E futuro cunhado. – Acrescentou. Rita beijou a barriga da mãe e deu-lhe mais um abraço.

-Quem sabe mãe... – Despediram-se e Maria saiu do quarto, e milésimos de segundo depois Fábio saiu da cama e colocou-se de pé, olhou para Rita com os olhos a brilhar como o sol que irradiava o céu.

-Tu gostas de mim Rita... – Ela levantou-se da cama e colocou-se frente a frente a Fábio, e pela primeira vez quem tomou iniciativa foi ela, que o beijou. Um beijo que apesar de diferente dos anteriores transmitia todos os sentimentos que os unia: amor, respeito, carinho e sinceridade.

-Sim Fábio, eu gosto de ti. Mas não quer dizer nada, as coisas não são assim tão fáceis.

-Se tu gostas de mim e eu de ti, porque não te posso chamar de minha namorada?

-Como é que queres que namore contigo se morro de ciúmes só de pensar que as raparigas falam contigo? E que ainda te pedem a camisola? E começam a ver o jogo e começam a babar-se para cima de ti? Além do mais como é que sei que não lhes dás trela?

-Elas podem ver mas só tu podes tocar. – Trocaram um beijo curto e cruzaram os dedos. –E eu sei separar as minhas verdadeiras fãs, das interesseiras. E além do mais tenho a certeza que senão as conseguir meter na linha tu irás pôr!

-E se algum dia tu fores transferido para outro clube longe? O que vou fazer?

-Não irei tomar decisão nenhuma sem te consultar. Mas é bom saber que já estás a pensar no nosso futuro. – Fábio sorriu mas Rita não conseguiu desfrutar do momento da mesma forma, a sua indecisão não a deixava viver em plena felicidade.

-Claro, quando entro numa relação é para valer, para o que der e vier. Vamos dar tempo ao tempo pode ser? Não precisamos de pôr rótulos em nada.

-Tenho medo que me esqueças durante esse tempo. – Confessou ele cabisbaixo.

-Tu moras mesmo ao meu lado como queres que te esqueça? – Sorriram. –Digo isto a brincar mas não te conseguia esquecer nem que morasses no Algarve. Quero apenas tempo para pensar. Mas acho que os teus beijos me vão ajudar. – Fábio não precisou de ouvir mais nada, beijou-a carinhosamente como sempre fazia.

Acabaram por trocar mais uns carinhos e enquanto Fábio foi tomar banho e vestir-se, Rita acabou por fazer o mesmo, cada um em sua casa. Ela tinha de ir para a escola e Fábio oferecera-se para a levar até lá. Tomaram o pequeno-almoço juntos e ele acabou por levá-la até á escola, apesar da insistência dela que não seria necessário, tal como a restante família dela, também ele ainda estava preocupado com o seu pé. Embora o médico já o tivesse dado como curado.

"Estas semanas sin verte
Me parecieron años
Tanto te quise besar
que me duelen los labios



Mira que el miedo nos hizo
cometer estupideces
Nos dejo sordos y ciegos
Tantas veces"


O telemóvel de Rita começara a tocar interrompendo a aula.

-Desculpe “stôra”. – Olhou para o ecrã e deparou-se com uma chamada de Fábio. Ele sabia que naquela altura estava em aula e mesmo assim ligara-lhe. Desligou a chamada mas ele tornou a repetir a chamada. –Posso ir atender a chamada? É mesmo muito importante!

-É algum dos seus pais?

-Sim. – Mentiu. –E como a minha mãe está grávida pode ser alguma emergência.

-Vá atender lá fora, mas não se demore! E que isto não se torne a repetir! – Rita levantou-se do seu lugar e atendeu a chamada e saiu da sala. –Fábio estou em aula, não posso falar.

-Eu sei que estás em aula, mas acredita que é mesmo importante.

-Estás-me a preocupar.

-Pega nas tuas coisas e sai da escola. Estou à porta. – Desligaram a chamada e Rita entrou na sala, inventou uma desculpa para ir embora da aula e foi até á porta da escola. Rapidamente deparou-se com Fábio e entrou para dentro do carro dele.

-Já me podes contar o que se passou? E porque é que não me podias contar ao telemóvel?

-A tua mãe caiu das escadas no trabalho e está no hospital.

-O quê? Como é que ela está? E o meu irmão?

-A tua mãe está bem, o teu irmão é que não se sabe ao certo.

-Leva-me até à minha mãe.

-Tens a certeza que queres ir ver a tua mãe? Ela neste momento está a fazer exames e a ser avaliada pelos médicos.

-Sim, quero estar com a minha mãe, este é o momento em que ela mais precisa de mim. E os meus irmãos já sabem?

-A tua irmã já está a caminho do hospital com o teu cunhado. O teu irmão está na escola e os teus pais acharam que era melhor não lhe dizer nada até saberem mais.

-Eu não posso perdê-los Fábio, simplesmente não posso.
Fábio sentira-se impotente, qualquer palavra que pudesse dizer não iria acalmar nem apaziguar Rita. Não sabia qual era a dor de perder alguém da família, nunca havia passado por ela e todos os discursos que ouvira até então pareciam inconvenientes e inúteis para lhe dizer. Ele não podia fazer nada para a fazer sorrir, nem para a fazer sentir melhor, por isso pediu apenas:

-Vem para o meu colo. – Rita obedeceu, apesar do carro não ser o local mais confortável para se sentar no colo dele. Ela sentia-se segura naqueles braços, com o doce beijo que ele lhe dava na cabeça sempre que se sentava ao seu colo. Ouvir o bater do coração dele e o seu respeitar fazia-a acalmar. Respirou bem-fundo para demonstrar que estava calmo, embora estivesse tão nervoso, e sussurrou. –Vais ver que foi só um susto.

-E senão for? E se perder o meu irmão? Ou a minha mãe? – Continuava a soluçar e com as lágrimas a correrem-lhe pela face e Fábio sentia o seu coração apertar, e a apertar cada vez mais. Amava-a cada vez mais e não puder fazer nada por ela fazia-o sentir fraco.

-Preciso que te acalmes para poder ficar mais descansado, isso não te faz bem e não faz bem á tua mãe e irmão.

-Obrigada por estares aqui comigo. – Disse limpando as lágrimas.

-Estarei sempre aqui para ti. – Além do bonito sentimento que era o amor, existia um outro sentimento forte entre eles, a amizade e naquele momento Rita precisava daquele sentimento.

Rita saiu do colo dele que percebeu que ela se estava a sentir melhor, apesar dela não o dizer. Ligou o carro e como sabia que a música tinha um poder calmamente sobre ela, acabou por ligar o rádio e com o passar do tempo ela acalmou-se, a luz no seu olhar voltara e a garra e a coragem que a descreviam estavam presentes novamente. Quando estavam a chegar ao hospital pousou a mão sobre a perna dele e deixou-a ficar, era uma forma de lhe agradecer sem sem por palavras e o momento não pedia mais que isso, a música calma que tocava no rádio, que estava baixa fazia o momento tornar-se ainda mais especial.

-Rita. – Ela olhava para o vidro observando o parque de estacionamento mas a partir do momento em que ele a chamou, olhou para ele. O seu olhar dizia algo mais que ela não conseguia descodificar, não conhecia e queria perguntar mas algo não a permitiu falar, Fábio desviou o olhar para a mão dela que o acompanhou. Não precisaram de falar, ela entendeu o que se passava.

-Desculpa. – Afastou rapidamente a mão dele, envergonhada. Saíram do carro mas ela ainda estava envergonhada pelo que se passou, não queria de forma alguma provocá-lo mas acabou inconscientemente por fazê-lo. Cruzaram os dedos num só e caminharam em direcção ao hospital.

Chegaram até à recepção e o senhor Luís já os esperava, cumprimentou-os e encaminhou-os até ao quarto, a sua irmã e o cunhado já haviam chegado e estavam todos à espera que o médico lhe desse notícias, a preocupação era de momento com o bebé, porque a mãe estava fora de perigo. E a ideia de perder o mais pequeno membro da família assustava-os, era um pequeno ser que vivia ainda no ventre da mãe mas em parte tinha sido ele o principal culpado para a família estar novamente reunida, através de sua simples existência.
Rúben, Ana, Luís, Fábio e Rita aguardavam na sala de espera que existia junto ao quarto, quando o patriarca da família retirou a ecografia do seu bolso, colocou a mão sobre ela e o dedo indicador a passar pelas feições do pequeno.

-Para mim serás uma Clarinha. Para a tua mãe és um Bernardo. – Sorriu. Ana levantou-se e colocou-se de frente para o pai.

-E e será um bebé. Tudo isto foi só um susto, vamos todos ficar bem.

Rita estava sentada numa cadeira olhando para o vazio que transmitia com o olhar. Não sabia o que pensar, nem o que fazer. Sentia-se culpada e triste, não deveria ter sido tão egoísta ao ponto de ter abdicado de uma ecografia do irmão por um capricho. As suas mãos estavam cruzadas sobre as suas pernas e Fábio pousou a mão sobre a perna dela que a fez arrepiar, sabia que era a forma de a apoiar mas ainda a fazia sentir-se mais fraca. Queria transmitir a todos que não estava triste e aguentaria a dor sem derramar uma lágrima, mas com a presença dele sentia-se fraquejar, porque só com ele conseguia chorar sem vergonha e sentir-se melhor. O médico aproximou-se da sala e pronunciou:

-Família Madeira? – Aproximaram-se todos do médico, à excepção de Rita que se deixou ficar um pouco para trás e ainda mais a trás dela, Fábio que não a iria deixar sozinha, apesar de não ser da família era tratado como era tratado Rúben, o marido de Diana, e iria estar presente naquele momento importante, não só pelo sentimento de amizade por todos, mas também pelo romance que sentia por Rita.

-Sim, somos nós, diga senhor doutor. – Respondeu Luís.

-A sua mulher está estável e recuperada, irá ficar com algumas mazelas físicas mas com algum descanso irá passar, irá ficar mais alguns dias internada para a mantermos sob vigilância.

-E o meu filho doutor?

-Em meu nome e da minha equipa peço desculpa, lutamos mas infelizmente não conseguiu sobreviver.

Como irão reagir à notícia?

Que irá sentir Rita com a perda do irmão? Como irá reagir Pedrito?