sábado, 5 de abril de 2014

Capítulo 18: “Não. Já estou apaixonado”


-Fábio. – Disse Rita tocando no braço do amigo. – O Pedro está ali, acompanhado.

-Vai falar com ele. Eu fico aqui com a Diana.

-Não. Ele está com aquela rapariga e eu estou com vocês.

-Devias ir falar com ele e esclarecer tudo, senão não vais ficar bem.

-Desde que te tenha a ti e à minha família, fico bem.

-Obrigada. – Fábio deu um beijinho na testa da amiga. -  Tens a certeza que não queres ir falar com ele? Eu não me importo nada.

-Tenho. Vou adiar esta conversa mais uns tempos.

Rita virou as costas a Pedro e à sua companhia e começaram a caminhar em direção a casa.

-Rita. – Aquela voz parecia familiar. E começava a aproximar-se cada vez mais deles. – Espera. – Pararam no local onde estavam e olharam para trás. Era Pedro. – Precisamos de falar, Rita.

-Falamos noutra altura, tu estás acompanhado e eu também.

-Por favor. – Pediu Pedro.

-Fábio senta-te com a nossa afilhada ali no banco que eu já vou ter com vocês. – Ele acenou com a cabeça e fez o que a amiga pediu.
Começaram a caminhar junto ao rio mas sem se afastarem muito,Pedro também pediu à sua amiga, para aguardar por ele e ela fez o que o amigo lhe pedira.

-Acho melhor adiarmos esta conversa. Tu tens a tua amiga à tua espera, eu tenho o Fábio e a Diana.

-Se adiarmos sabes, que tão cedo não voltamos a falar.

-Está bem, mas não nos podemos afastar muito. Não posso esforçar o pé.

-Que te aconteceu?

-Tive um acidente de moto ontem, depois de deixar a tua casa.

-O que se passou? Estás bem? – Perguntou verdadeiramente preocupado com a amiga.

-Torci o pé e fiquei com alguns arranhões, mas isto passa. Foi só o susto. Pior ficou a mota.

-E tudo isto depois da nossa discussão. – Sentaram-se num banco um ao lado do outro, mas Rita esticou o pé magoado e deixou o outro sobre o banco.

-Tu não tiveste culpa. Ninguém teve culpa, quem está na estrada está sempre sujeito.

-Obrigada por me fazeres sentir bem. Depois de tudo.

-É para isso que servem os amigos! Estão juntos nos bons e maus momentos! Sei que ontem não tive a melhor atitude e tenho que te pedir desculpa. Não foi minha intenção magoar-te mas acabei por fazê-lo. Nunca me passou pela cabeça que tu gostasses de mim... Dessa forma.

-Não tinhas como saber, nunca te dei motivos para desconfiar.

-Mas podia ter desconfiado de qualquer coisa, por mais pequena que fosse. 

-Eu fui muito cuidadoso. Tive a minha oportunidade e perdi-a, por ciúmes parvos e estúpidos.

-Não, eu podia ter evitado tudo isto e não o fiz.

-Se eu te tivesse dito que gostava de ti, nada seria assim.

-Muito seria diferente, sabemos disso. Mas acho que nenhum tem de se sentir mais culpado que o outro no meio desta história.

-Mas tudo continua presente no futuro, com culpa ou sem ela.

-Sim. E já fizemos o que tínhamos que fazer, pedimos desculpa e sabemos bem que somos amigos. Porque razão iríamos estragar uma amizade por causa de um erro?

Pedro abraçou Rita que também o apertou nos seus braços.

-Obrigado! – Disse Pedro sussurrando ao ouvido da amiga.

-De nada meu pequeno grande! – Fábio observava todo aquele momento á distância e sentia ciúmes. Ciúmes de não ser ele no lugar de Pedro. Queria poder sussurrar-lhe palavras de carinho e dizer o quanto gostava dela.
Afastaram-se e puderam observar que Fábio estava próximo, ou melhor, estava mesmo à beira deles. Que fez tudo para controlar os seus impulsos, mas foram mais forte e aproximou-se dos amigos. Estava a começar a sentir ciúmes de Pedro, sabia bem o que ele sentia por ela, e que o sentimento não era recíproco,  mas queria sentir que era o único homem da vida de Rita.

-Fábio que fazes aqui? – Perguntou a rapariga.
Ele não poderia contar a verdade, por isso tinha de inventar uma justificação viável para a sua presença. Pedro levantou-se e colocou-se ao lado de Fábio e pode admirar Diana durante alguns segundos, tocou com o dedo indicador na bochecha da menina e disse:

-A menina está quase a dormir. É melhor levá-la para casa.

-Sim. A menina ainda não está habituada ao teu colo, é melhor eu tentá-la adormecer, mas vê se aprendes uma lição! Afinal também é tua afilhada! – Colocou os braços debaixo dos de Fábio que pousou suavemente a menina no colo da madrinha, virou costas e começou a andar e a cantar para a pequena. Fábio queria acompanhá-las mas Pedro falou:

-Ela está-te a mudar, puto. – Foi completamente apanhado desprevenido com aquelas palavras carregadas de razão.

-A Rita já me mudou, se sou o homem que sou, a ela o devo. – Apontou para a amiga e sorriu.

-E tu estás-te a apaixonar. – Disse Pedro sorrindo mas sem nunca olhar para Fábio, apenas admiravam Rita.

-Não. Já estou apaixonado. – Confessou pela primeira vez em voz alta e sabia bem dizê-lo. Mas fizera-o com alguém completamente inesperado.

-Ela também gosta muito de ti. – Apesar de magoar a Pedro encarar esta dura realidade, sabia que era verdade e queria apenas a felicidade de Rita e sabia-o que era junto a Fábio que seria e era feliz. – Promete-me apenas que vais fazê-la feliz e não a vais magoar como eu fiz.

-Vou fazer tudo para fazer dela a mulher mais feliz do mundo. Mas... Não te magoa dizeres isso, dessa forma e com essa naturalidade?

-Não imaginas o esforço que estou a fazer para tentar mostrar que está tudo bem.

-Te garanto que vou fazer tudo para fazer dela a mulher mais feliz do mundo, mas ainda é tudo um mundo novo para mim. Sei que gosto dela como nunca gostei de outra rapariga, mas ainda não sei se a amo, entendes? – Pedro sorriu.

-Acordas a pensar nela e adormeces também a pensar nela, sonhas com ela, falas imenso sobre ela, já para não falar no sorriso de orelha a orelha, sem razão aparente. Queres estar sempre ao pé dela. E tens constantemente saudades, mesmo quando estão afastados há escassos minutos. Mas tens medo que ela descubra, porque tens medo de perdê-la. Mas não consegues deixar de pensar como será quando a beijares e como será o vosso futuro, se tiveres juntos. E para não falar que tens ciúmes. – Sorriram. – Sim, porque eu percebi que não te aproximaste de nós, por causa da menina.
Fábio ponderou sobre aquelas palavras e sem dúvida tudo o que dizia era verdade.

-E as borboletas no estômago? – Perguntou ingenuinamente. E Pedro não conseguiu conter a gargalhada.

-Nem todos os apaixonados sentem as borboletas no estômago. Isso é uma coisa bonita para os filmes e para as músicas. Mas quero que saibas, que apesar de tudo, podes contar comigo. Mas em primeiro lugar, desculpa, pelas minhas atitudes. Ás vezes os apaixonados fazem coisas que normalmente não faziam.

-Obrigada! – Fábio deu um abraço a Pedro. Mas rapidamente se separaram. – Prometo que vou fazer tudo para fazê-la feliz.

-Posso saber o que é que as duas Amélias estão a fazer? E quem é que vais fazer feliz, Fábio? – Perguntou surpreendendo os amigos.

-A Diana. – Disse por instinto Fábio. E Rita ficou desapontada com o que ouvira e não o conseguiu esconder. – Estava a dizer ao Pedro que vamos ser padrinhos da Diana e que vou fazer tudo para ela ser feliz.

-E que experiência tem o Pedro para te fazer prometer isso?

-Uma irmã mais nova e montes de primos mais novos.

-Já cá não está quem falou! – Disse animada. – Fábio é mesmo melhor irmos andando que a menina precisa de descansar mais um bocadinho e depois está na hora do lanche.

-Está bem. Obrigada, cabeção. – Disse dando um “passou-bem” a Pedro.

-De nada, puto.

-Adeus, Pedro. – Despediram-se com dois beijinhos. – Por falar nisso a tua amiga disse que tinha de ir embora, qualquer coisa com uma urgência ou assim, não me lembro bem.

-Ela não era minha amiga. Conhecemo-nos hoje, aqui e estávamos a falar, estamos a viver situações semelhantes.


-Pode ser que algum dia a voltes a encontrar por aqui! – Deram dois beijinhos e Rita e Fábio começaram a caminhar até casa. Colocaram a menina sobre o carrinho que haviam trazido e instintivamente, por impulso de ambos, cruzaram as mãos.


Quando chegaram ao prédio, tomaram a decisão de irem até casa dela, afinal ele não estava preparado para receber a visita de uma bebé. Quando chegaram a casa, a madrinha deitou a menina sobre a sua cama que já dormia e foi até á sala onde estava o padrinho. Fábio estava sentado no sofá, mas quando deu pela entrada da amiga, levantou-se. Rita não ficou indiferente e foi ter com o amigo. Aproximaram-se. Ficaram apenas a alguns centímetros um do outro, mas os olhares eram muito intensos. Quem tomou iniciativa foi Rita que colocou as mãos sobre o pescoço do rapaz, e ele nada indiferente, colocou a mão sobre as ancas dela. Estavam cada vez mais próximos, os lábios iam-se unir como tanto desejavam, como tanto haviam pensado. Mas algo os interrompeu. O choro de Diana, provavelmente com fome, impediu-os de ir avante. Não podiam negar o choro da menina, por isso foram obrigados a adiar o beijo, mais uma vez.

“Há terceira não é mesmo de vez”

Pensou Rita para si mesma, já era a terceira vez que se tentavam beijar e algo os impedia. Mas preferia não acreditar que era o destino, ela sabia que iria acontecer, mais cedo ou mais tarde.

(Passado alguns dias)

Enquanto Fábio andava ocupado a preparar uma festa de aniversário surpresa a Rita, sem que ela pudesse desconfiar. A jovem andava ocupada entre conhecer a nova escola, fazer novos amigos e conviver com a nova realidade mas também em tentar descobrir ao certo o que sentia por Fábio, tentava chegar a alguma conclusão e só conseguia chegar até uma: não podia ficar um dia longe dele. Em especial, o seu dia de aniversário.
Era 22 de Janeiro, véspera do seu aniversário e estava a família Madeira reunida na sala, era o momento de partilhar o que queria para o dia seguinte. Tinha a certeza, amava a família mas tinha que o ter junto a si, não era um capricho, mas sim uma necessidade.

-Só vos peço como prenda de aniversário deixarem-me ir a Braga amanhã. Sei que tenho aulas mas não aguento simplesmente, não estar longe do Fábio e muito menos no dia de amanhã. – Disse Rita partilhando (quase) tudo o que sentia. Os pais conheciam Fábio e gostavam imenso dele, já tinham percebido que havia algo mais que uma amizade. Continuavam a encontrar-se frequentemente, mas a forma de ser de ambos mudara. A forma de estar para com a vida, a alegria com que viviam e pequenos detalhes em ambos mudavam e não conseguiam escondê-lo. A jovem lisboeta sabia que podia confiar nos pais, que eram os seus melhores amigos, mas ainda não se sentia à vontade para falar sobre o que sentia.

Qual será a resposta dos pais?
Será que vão entender o que Rita pede? Quem ficará surpreendido no final?

sexta-feira, 7 de março de 2014

Capítulo 17: “Não vou puder estar contigo no teu dia de anos”



-Estávamos a almoçar podemos? – Respondeu com uma pergunta Maria.

-Claro que sim! Mas é estranho ver um amigo e a minha mãe a almoçarem, sem mim.

-Cruzamo-nos na entrada do prédio, e como ainda ia cozinhar, a tua mãe convidou-me para almoçarmos. Não te importas?

-Claro que não. Eu é que não estava á espera! – Respondeu sorrindo. -Já és quase o 6ºelemento desta família!

-Obrigada pequena! Não te esqueças da nossa afilhada!

-E da tua irmã e genro! – Concluiu a mãe.

-Pronto então és o 9º elemento desta família! Por falar nisso... Mãe já sabes quando tens a próxima consulta?

-De hoje a uma semana.

-No meu dia de anos?

-Sim. Como sei que queres muito ver o teu irmão, nada melhor que no teu dia de anos para fazê-lo!

-Obrigada mãe! – Deu-lhe um abraço forte e um beijo na bochecha.

-Infelizmente não vou estar cá nesse dia. – Afirmou Fábio bastante desanimado.

-Não? – Perguntou Rita triste só de pensar que iria ficar um dia sem o ver.

-O jogo foi antecipado para segunda, em Guimarães. Vai ser complicado estar cá.

-Eu acredito. Mas era importante ter-te comigo.

-Desculpa. Mas sabes que se for convocado tenho mesmo de ir.

-Eu sei. Não depende de ti.

-Mas prometo que te compenso! – Prometeu Fábio.

-Obrigada! Mas não é preciso!

-Faço questão! É o teu aniversário, a tua maioridade. Vou estar longe mas vou-te compensar ou não me chamo Fábio Cardoso!

-Bem meninos e eu vou indo que senão eu e o irrequieto chegamos atrasados ao trabalho! – Deu dois beijinhos á filha e enquanto dava a Fábio, Rita perguntou:

-Já me esquecia. Como correu a reunião?

-Bem. Era só para lhe contar que estava de esperanças.

-Não sabia. E o que é que ele disse?

-Felicitou-me e disse que já desconfiava. A barriguita já se nota um pouco. – Colocou a mão sobre a mesma. – Mas vou indo senão chego atrasada. Beijinhos. – Virou costas e foi-se embora.

-Podias-me ter ligado para te ir buscar.

-Oh. Mas tu não és o meu motorista de serviço.

-Achas que me importava de te ir buscar?

-Não sei. Podias já ter planos.

-Mesmo se tivesse, cancelava-os para te ir buscar.

-Senão parares com isso, sou obrigada a espetar-te um beijinho!

-E porque não dás?

-Queres um beijinho á esquimó?

-Beijinho á esquimó? – Perguntou sem saber.

-Não sabes o que é um beijinho á esquimó?

-Não.

-Que tolo! Toda a gente sabe o que é um beijinho á esquimó!

-Eu não sei e tu continuas a gostar muito de mim!

-Presunção e água benta cada um toma a que quer! – Respondeu com um ditado popular.

-Não é verdade? – Perguntou olhando-a nos olhos. E Rita para fugir á situação 
deliciada sentou-se.

-Sim, é! Pronto já sabes o que querias, agora deixa-me comer! – Disse mais uma vez fugindo ao assunto.

-Também gosto muito de ti pequenina! – Ela sabia exatamente o que queria dizer mas não queria assumi-lo em voz alta, tinha medo do que poderia sentir, mas também medo de dizê-lo.

Almoçaram em silêncio e sem trocar nenhuma palavra. O ambiente entre eles estava tenso, como se quisessem falar sobre um assunto e não conseguissem. Já perto do fim, quem tomou a iniciativa foi ele.

-Temos mesmo que falar sobre o momento de ontem.– Disse Fábio levantando-se e ficando frente a frente com a amiga.

-Não vou ser cínica e dizer que foi indiferente, fiquei um bocado magoada e desiludida contigo.

-O que é que eu te fiz para te deixar assim?

-Tu acabaste com a Catarina, por minha causa... – Encarou-o olhos nos olhos. -É impossível não me sentir culpada. Tu magoaste alguém por minha causa, podia e devia ter ficado calada. E quanto ao beijo... – Teve medo a dizer estas palavras quanto mais enquanto o olhava diretamente sobre os olhos cor de avelã. – Ou quase. Nós iamo-nos beijar e tu deitas-me um beijo na testa. Senti que me estavas a tratar como tratas o meu irmão.

-Em relação á Catarina, não tens de te sentir culpada. Não me obrigaste a fazer nada, eu limitei-me a fazer porque quis. Não tiveste culpa de nada.

-Tive sim. E não tentes negá-lo.

-Não me obrigaste a fazê-lo. Deste-me a tua opinião e eu escolhi se dava ouvidos ou não. E dei. E mesmo que não me tivesses dito nada, eu teria acabado com ela.

-Eu conheço-te, sei bem como és e sei que não farias.

-Não ia continuar com ela, enquanto existem sentimentos por outra pessoa.
Rita foi apanhada de surpresa com aquela afirmação, tinha medo da carga emocional que podia existir, porque nem ela não sabia ao certo que sentia por ele.

-E fica sabendo que em relação ao beijo. Ou quase. Só não o fiz, porque sabia que te ias arrepender.

-Não achas que já sou suficientemente crescidinha para tomar essa decisão?

-Sim, mas quis evitá-lo.

-Se acontecesse, era porque tinha de acontecer. Devias ter deixado acontecer.

-Tive medo de te perder, depois do beijo.

-Mas fizeste-me sentir uma criança, como se fosse o meu irmão.

-Desculpa. Não foi essa a minha intenção, quero apenas o teu melhor. Tu sabes disso!  Acredita que é verdade que também queria aquele beijo, não o nego. Só que não éramos só nós... Não era capaz de trair e magoar dessa forma a Catarina.

-Mas passado algumas horas acabaste com ela.

-Sim e não me arrependo. Se pudesse nem tinha começado, só a magoei.

-Podias ter evitado tudo. – Disse desabafando, nunca com a intenção de o culpar, apenas de dizer o que pensava e sentia.

-Tu também podias ter evitado magoar o Pedro.

-Não tinha como.

-Tinhas sim, se tivessem falado sobre o que sentiam, tinhas evitado magoá-lo.

-Nós falamos sobre o que sentíamos. Ele é que não foi totalmente sincero.

-E tu nunca desconfiaste de nada?

-Não. Nunca.

-Nem por um segundo?

-Nem assim. Mas sabes o que precisamos mesmo é de apanhar ar! – Disse interrompendo o rumo daquela conversa, tinha medo de alguns temas que de todo, ela queria conversar.

-E vais com as tuas amigas? – Falava das muletas, das quais Rita precisava de auxílio para caminhar.

-Vou tentar ir sem elas, mas era melhor era ir com um pé elástico para dar algum apoio. Mas não tenho...

-Eu tenho em casa, espera só um pouco que já volto.
Fábio foi até sua casa buscar o pé elástico para auxiliar a amiga a caminhar e embora não tivesse demorado muito, pouquissímos minutos na realidade, ela sentiu as saudades dele atravessarem-lhe o peito.
Quando regressou, ela não teve medo em dar-lhe um beijo na face e a abraçá-lo, ele não negou e retribuiu de uma forma surpreendida mas feliz.

-Enquanto estive em casa, estava a pensar... – Ela não o deixou terminar a frase e interrompeu-o.

-Tu pensas? – Ele sorriu.

-Sim. Em muita coisa, por incrível que pareça sou muito pensativo.  – Confessou claramente falando sobre um tema que ela não queria falar, mas pensava com bastante frequência. -Mas adiante.. Que achas de irmos buscar a Diana e vamos passear os 3?

-Parece-me uma excelente ideia! – Rita deu o telemóvel a Fábio. – Liga para a minha irmã enquanto calço o pé elástico. E já agora obrigada.

-De nada pequena!
Enquanto Fábio conversava com a mãe da sua afilhada, Rita calçava o pé elástico e mais tarde os ténis. Ficou combinado que iriam buscar Diana á creche e mais tarde os pais da menina iriam buscá-la a casa da madrinha.

-Que te parece de passearmos naquele passeio entre a Arrentela e o Seixal á beira-rio?

-Parece-me uma excelente ideia! Não nos afastamos muito de casa e caso a menina não tenha dormido, que é o mais próvável, podemos voltar a casa e pô-la a dormir.

-E tu de teres cuidado por causa do teu pé!

-Sim paizinho! – Disse sorrindo. – Não te importas de irmos de carro buscar a menina?

-Claro que não. Tens é de me dizer onde é.

-Pelo caminho eu explico-te.

Foram buscar a pequena Diana que se demonstrou bastante animada por se encontrar com os padrinhos, mas rabugenta porque não dormira o tempo suficiente. Por isso mesmo, não se poderiam demorar muito tempo no passeio. Quando regressaram da creche, Fábio estacionou o carro e fez questão de ser ele a levar a afilhada ao colo durante o passeio, até de forma a evitar que a madrinha da sua afilhada fizesse demasiado esforço no pé.
O passeio por onde se deslocavam era agradável e sentiam-se felizes, apesar das birras típicas (de sono) da pequenina. Aquele momento tornava-se inesquecível, faziam-na esquecer-se das dores que sentia no pé. Fábio era extremamente carinhoso com Diana, extremamente cuidadoso e babado com a pequena, como seria com os seus filhos? Aliás com os filhos de ambos? Tentou afastar aqueles pensamentos da cabeça mas era tarde demais, já os tinha imaginado mentalmente e não era ideia que afastasse por completo.
Mas o passeio agradável, acabou por ter uma surpresa inesperada. Não, pela negativa, simplesmente porque era completamente impensável. Pedro encontrava-se num banco daquele passeio, junto ao rio, a conversar com uma rapariga.

Quem seria a rapariga?

Será que Rita vai falar com ele? E como ficará Fábio? 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Capítulo 16: “The madness of today become memories of tomorrow”


Rita não teve uma boa noite de sono com as dores causadas pelo acidente mas mesmo assim teve de acordar cedo, ia enfrentar uma grande mudança na sua vida. Uma nova escola, novas caras, novos amigos, novas relações e uma nova realidade. Sentia-se preparada e com vontade de lutar, mas também estava receosa. Sentia-se insegura, com medo que não conseguir relacionar-se com alguém, de não conseguir fazer novos amigos e sabia que eram importantes. Mas sabia que tinha um á sua beira, Fábio. E depois do que acontecera no dia anterior, não sabia ao certo o que pensar.
Fábio tinha provado ser uma enorme pessoa e um enorme amigo, que estava somente interessado na sua amizade. Mas não podia negar a si mesma que queria aquele beijo, que o desejava. Que nutria sentimentos por ele que não nutria por mais ninguém e que sentia uma necessidade inexplicável de estar com ele, até mesmo sem conversarem, ou estando em silêncio absoluto.
Levantou-se da cama e foi até á casa de banho, tomou um banho refrescante e volto até ao quarto onde escolheu a roupa. Optou por algo simples e confortável, até porque as muletas atrapalhavam.



E para calçar optou por uns ténis cor de rosa simples e confortáveis.
Agarrou nas muletas e foi até á cozinha onde sabia que a família se encontrava reunida. O pai já tinha saído para ir para o trabalho e a mãe preparava-se para sair com Pedrito, tinha de ir mais cedo, porque teria uma reunião e tinham-se esquecido completamente que a rapariga também precisava de transporte. E Rita ainda nem estava pronta para sair de casa. Mas a sua mãe queria esperar pela filha, para a levar até á escola, mas Rita não queria que a mãe se atrasasse mais por sua causa, e conseguiu convencê-la a ir-se embora. De seguida, foi fazer as tarefas que lhe faltaram. Preparava-se para ir a pé até á escola e o mais certo era chegar atrasada, porque faltavam pouco mais de 20 minutos para entrar. Iria causar uma péssima primeira impressão.
Por isso tocou á campainha de Fábio. Esperou algum tempo e quando o amigo abriu a porta, foi surpreendida por ele. Tinha apenas uma toalha a cobrir-lhe a cintura, nada mais. E Rita pode constar que ele era ainda mais atraente do que julgava e imaginava.  O cabelo pingavam e as gotas escorriam pelo corpo, e todas as tatuagens que tinham estavam bem visíveis, inclusivé a do peito.


Não conseguia esconder a admiração. Abriu a boca e Fábio apenas sorriu. Baixou a cabeça e benzeu-se e disse em voz baixa:

-Ai meu Deus! – Nunca tinha observado o corpo de Fábio e não fazia ideia do que a tatuagem no peito diria.

-Tapava o peito mas se o fizer deixo outras partes á mostra! Rita olhou para ele e colocou as mãos á frente dos olhos, mas afastando os dedos, numa tentativa de mostrar que estava envergonhada mas também de admirá-lo.

-Deixa-te estar! Eu depois venho cá! Disse na tentativa de fugir á maior vergonha da sua vida.

-Entra masé tola! Eu vou vestir qualquer coisa para não te deixar tão pouco á vontade. – Disse entrando em casa e Rita seguiu-lhe. – Fecha a porta e finge que a minha casa é a tua. – Afirmou indo em direção ao quarto para vestir alguma roupa menos provocatória para os sentidos dela. Falou do quarto para a sala, onde estava a rapariga. Já tomaste o pequeno almoço?

-Não. E tu?

-Também não. Assim ficas a fazer-me companhia a comer.

-Já tenho o meu pequeno almoço pronto em minha casa.

-E eu não tenho comida cá em casa? Leva o que tens em tua casa para comeres a meio da manhã e tomas aqui o pequeno-almoço comigo.

-Obrigada então fico-te a fazer companhia.

-Está bem. Agora que me lembrei, estás melhor?

-Estou ainda com dores mas é normal. E a noite também não foi boa. Confessou. – Por causa das dores não consegui dormir bem. – Mentiu, um dos fatores que a fizera dormir mal era o próprio.

-E não podes ir dormir mais? Ainda é cedo.

-Tenho aula daqui a – Olhou para o relógio. Quinze minutos. Vim tocar para perguntar se me podes dar boleia.

-Claro que posso. Já estou pronto. – Saiu do quarto com uma t-shirt bastante decotada que deixava um pouco á mostra o seu peito e em particular a tatuagem. – Que é da tua mochila?

-Pois.. Esqueci-me dela.

-Eu vou lá buscá-la. Está onde?

-A mala deve estar em cima da minha cama, senão está no meu quarto. Toma as chaves. – Esticou a mão e deu-lhe as chaves, o que provocou um toque entre a palma das mãos de ambos.

Fábio agarrou nas chaves e foi até casa da amiga enquanto ela tentava levantar-se do sofá de forma a não causar dor no pé magoado e a não exerguer demasiado esforço no pulso magoado. E disse em voz baixa:

-Se tu continuas a ser tão giro, vejo-me obrigada a saltar-te para cima! E não há Catarinas que me impeçam! – Disse sorrindo. Eram amigos e ela sabia bem que era a relação entre eles, mas não podia negar que sentia uma enorme atração por ele.

Passado pouco tempo ele voltou com os pertences da amiga, e transportou-os para não sobrecarregar a amiga. Foram até ao carro e ele só se sentou no lugar do condutor depois de se certificar que a amiga permanecia bem instalada no banco.

-De certeza que não te estou a causar transtorno?

-Não. Eu também estava só a acabar de me arranjar para ir para o treino.

-Ainda ontem tiveram jogo e hoje não têm folga?

-Não. Temos jogo na quarta. Fora e precisamos de treinar.

-Não sabia. Mas boa sorte, sei que não vais precisar que és um exemplo, que és 
enorme e um orgulho para mim. E aqui entre nós, és a coisa mais próxima que tenho de ídolo. Sei que me vais deixar orgulhosa!

-Muito obrigada princesa! Disse com um sorriso genuíno. Nem imaginas o quanto fico feliz  por te ouvir essas palavras. Por saber que gostas do meu trabalho, por me admirares e principalmente por seres tu.

-Fiquei sem palavras! Senão tivesses a conduzir dava-te um xi daqueles enormes!

-Um xi?

-Um xicoração tontinho! Nunca tinhas ouvido?

-Não. Mas é fofo.

-Pois é! E vou ser o primeiro xicoração da tua vida! Sinto-me lisonjeada!

-Sei que será com uma pessoa que merece tudo de melhor!

-Fábio. Disse envergonhada Rita. Só por curiosidade posso perguntar-te o que tens escrito no peito?

-Há pouco não viste?

-Não.

-Quando parar mostro-te. Ainda há pouco a tua reação quando abri a porta foi qualquer coisa de muito bom. Só tu! – Ela deixou-se corar.

-Tens muita piada! Não estava á espera que me abrisses a porta naqueles modos!

-Quais modos?

-Tu sabes.

-Se soubesse achas que teria perguntado?

-Não sei. Alguém entende os homens?

-Ontem a Catarina disse-me isso.

-Ah... Fez bem. Disse a rapariga pouco á vontade com o tema da conversa.

-Ontem acabei com ela.

-Fizeste o quê? Perguntou surpreendida. Não esperava nada aquela atitude da parte do seu amigo.

-Acabei com ela. Estavas certa.

-Mas vocês começaram anteontem

-E acabamos ontem. Foi o melhor.

-Tenho de perguntar. Acabaram por minha causa?

-Queres que te diga a verdade?

-Não esperava outra coisa.

-Em parte foi tua a culpa, sim.

-E porque o fizeste?

-Porque tudo o que disseste estava certo, estava com ela, porque tu estavas com o Pedro. E estava a enganá-la. E sabes que mais? Eu e tu temos essa relação de namoro, mas sem sermos namorados ao mesmo tempo.

-Como assim?

-Confiamos um no outro, temos a necessidade de estarmos juntos constantemente, somos felizes um ao lado do outro como com mais ninguém e gostamos muito um do outro. A principal diferença é que não nos amamos e que não nos beijamos.

-Então tu optaste por mim em vez dela?

-Sim. – Respondeu enquanto estacionava o carro á porta da escola, de forma a deixar a amiga o mais próximo possível da entrada. Vou mostrar-te a tatuagem que tenho no peito. - Disse mudando o tema rapidamente, porque não sabia que palavras mais dizer. Levantou a t-shirt e deixou a descoberto a tatuagem. A rapariga não se conteve e encostou a mão no peito dele e seguiu cada palavra no seu peito enquanto a pronunciava em voz alta.

-The madness of today become memories of tomorrow.

-As loucuras de hoje tornam-se as memórias de amanhã. – Respondeu. E rapidamente tornaram a cruzar os olhares com “faíscas” como havia sido no dia anterior. Indiretamente estavam a querer que um possível beijo que trocassem seria uma loucura, ocorrida no dia, e tornar-se-ia uma memória no futuro.

-E melhor ir embora. Disse Rita tentando fugir ao que se iria passar. Pegou nas muletas e na mala com a intenção de sair do carro.

-Podes-me dar o teu número? Depois quero saber como correu o teu dia de aulas. – Pegou notelemóvel do amigo e colocou o seu número. Deu-lhe um beijo na face e disse:

-Manda mensagem para gravar o teu número se faz favor. Agora vou indo que ainda vou chegar atrasada. Mas obrigada pela boleia.

-Espera. Eu abro-te a porta.

-Deixa-te estar.

-Não sejas teimosa. – Fábio saiu do carro e contornou a parte da frente do mesmo e abriu a porta para a amiga sair.

-Obrigada. – Despediram-se com dois beijos e Rita foi em direção á escola nova. Chegaria em cima da hora do inicio da aula, mas ia com um sorriso na cara, Fábio deixava-a feliz e as suas atitudes demonstravam um enorme valor.

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Fábio depois de acabar o treino e de tomar banho, lembrou-se que faltava menos de uma semana para o aniversário da amiga e era um aniversário importante. Comemorava a maioridade. Era próximo da hora de almoço e decidiu ir até casa da amiga, na esperança de encontrar os pais dela. Queria saber se estavam a preparar alguma festa ou alguma comemoração em especial. Tinha pensado em preparar uma festa surpresa. Apesar de muito provavelmente não estar presente, não o impediria de o organizar.

Estacionou o carro e tocou á porta da família Madeira. Sabia que Maria tinha por hábito almoçar em casa e esperava encontrá-la.
Esperou durante algum tempo e quem lhe abriu a porta, foi Maria que o convidou para almoçar, pediu desculpa pelo incómodo. Tinha medo de não dar espaço suficiente, mas acabou por aceitou o convite.

Enquanto almoçavam, Fábio contou a sua ideia para o aniversário da amiga e Maria gostava muito das ideias que ele dava e da boa vontade que demonstrava. Iriam organizar uma festa surpresa para o aniversário de Rita e começaram a trocar algumas ideias. Mas sem qualquer aviso, Rita entra em casa e pergunta:

-Posso saber o que é que o chato e a grávida fazem juntas? – Perguntou sorridente. E na verdade ficaram bastante surpreendidos por ver Rita, por sorte, não tinha ouvido nada, mas mesmo assim teriam de arranjar uma desculpa digna para almoçarem juntos.
Que irão dizer a Rita?

Será que ela vai descobrir a festa surpresa? E como irá reagir?