sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Capítulo 22: “Ninguém lhe tinha feito nada assim”


-Parabéns a você... – Toda a equipa se aproximou daquele “casal” para cantar e celebrar o aniversário da jovem. – Nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida, hoje é dia de festa, cantam as nossas almas, para a menina Ritinha, uma salva de palmas. – Dois jogadores acenderam dois isqueiros e Rita soprou sobre elas. Todos aplaudiram e Fábio abraçou a amiga que derramou algumas lágrimas pelos olhos, de felicidade e de emoção e de alegria. O bolo era pequenino, apenas o suficiente para uma pessoa, mas valia mais pela atenção.

-Oh meu amor, não chores! - Deu-lhe um beijo sobre a testa. – És mesmo tontinha! – Rita olhou para os colegas e amigos dele e respondeu:

-Obrigada por tudo! – Respondeu limpando as lágrimas e sorrindo. – Não tenho palavras para vos agradecer...

-Agradece ao Fábio, porque foi ele que te trouxe para aqui. – Respondeu Ivan e ela olhou para cima e ele encostou os seus lábios aos dela. Alguns colegas começaram a tossir e não aguentaram os risos e separaram-se para sorrir.

-O bolo foi improvisado, desculpa. – Pediu Rúben Pinto, o capitão de equipa.

-Não tem mal, valeu pela intenção. – Pegou no bolo e pousou-o.

-Sabemos que não é muito, mas foi o que se arranjou! – Bernardo esticou a mão com um cachecol do Benfica. – Oferta de toda a equipa!

-Desculpa ser tão simples, mas foi o que conseguimos arranjar em cima da hora... Alguém se esqueceu de avisar que tu vinhas e este é o resultado! – Respondeu Bruno Varela olhando para Fábio.

-Não o culpem. – Desculpou-se Rita. – Ele não sabia que eu vinha cá, eu é que decidi fazer-lhe uma surpresa! – Apertou a mão de Fábio que lhe sorriu.

-E fizeste bem, não é toda a gente que tem a sorte de andar no autocarro do Benfica, com esta companhia. – Desta vez quem respondeu foi Fábio, que agarrou a mão de Rita.

-Se ele não te tratar bem já sabes, diz-nos que ele não terá vida fácil connosco. – Acrescentou André Gomes.

-Obrigada, mas ele comigo porta-se bem! Senão eu queixo-me! – Sorriu Rita e todos acabaram por afastar-se tão naturalmente como se tinham aproximado, sabiam respeitar bem o espaço uns dos outros e naquele momento era aquele casal que precisava de espaço. Com medo que Fábio começasse a conversa mais uma vez, foi ela que decidiu começar:

-Fiz tudo por tudo, para não me rir mas acho que não consegui disfarçar!

-Confesso que fiquei com uma pontinha de ciúmes. – Disse Fábio claramente brincando.

-Só tenho olhos para ti, tolo! – Deu-lhe um beijo na bochecha. – Na minha opinião, tu és o maior gato deste plantel e da equipa principal também! É que eu lembro-me de todas as conversas que tinha com as minhas amigas e com os jogadores que gostavam e eu praticamente falei com todos.

-A sério? Pedias a camisola a cada um deles e já tinhas prendas de anos e de Natal para os próximos tempos.

-Não tive coragem. E além do mais, acho que eles não iriam achar piada às conversas. Mas eu conto-te. – Fábio estava curioso, e Rita sorriu, lembrando-se de todas as conversas. – A Clarinha, recebeu as chuteiras do Bernardo, e eu brinco com ela, dizendo que ela é a Branca de Neve, mas em vez de 7 anões, só tem 1, porque o Bernardo é pequenito.

-Fala a mulher mais alta que conheci até hoje. – Respondeu sarcasticamente Fábio.

-A mulher mais baixa que conheceste até agora, é uma pessoa que fez mais de 300 quilómetros para te ver, por isso respeito! – Deu-lhe um beijinho na ponta do nariz. – E nem sabes da missa a metade. A Raquel chama macaquinho ao Ivan, não é racismo. Mas é por causa do rabo dele, ela já me mandou algumas fotos e ele tem um rabo enorme, parece uma lomba! E nas fotos nota-se imenso o alto na zona traseira. Então eu não consigo falar com ele, sem me rir! É que eu tento não reparar, mas não dá! E o Hélder tem a alcunha mais cómica que podes imaginar!

-Botinho?

-Não. Nem sei o que isso quer dizer na realidade, uma amiga minha, a Rita chama-lhe chinês.

-Chinês? – Perguntou Fábio surpreendido.

-Sim, sempre que ele sorri, fica a parecer um chinês! E tenho ainda outras duas conhecidas, que tem uma panca por jogadores dos juniores.

-Deixa-me adivinhar, o Guzzo e o Rebocho!

-Do Guzzo e do Diogo Rochinha!

-A sério? E também tem alcunhas divertidas como a Rita com o chinês, que por acaso é mulato? - Sorriram.

-Mais ou menos. A Beatriz chama Gregorio ao Guzzo, mas é porque é o apelido dele e assim só o grupo de amigas mais próximas é que entende! A outra rapariga, a Rita, diz que o Rochinha é cigano durante o dia e esquilo á noite.

-Cigano durante o dia e esquilo durante a noite? Isso é bom demais.

-Ela diz que ele tem cor de cigano, então é a cigana, porque o ídolo dela também é o Cancelo, que tem alcunha de Lelo, segundo o que sei. – Fábio confirmou com a cabeça. – E esquilo durante a noite, porque descobriu uma foto dele a dormir e diz que parecia um esquilo a dormir!

-As tuas amigas são mesmo uma comédia! – Fábio estava divertido com tudo o que acabara de descobrir.

-E ainda tenho outra amiga, a Sofia que chama Gomas ao André Gomes! Fora uma que tem uma panca pelo rabo do Gianni! – Fábio começou a rir-se como nunca antes Rita tinha visto, ele estava admirado e divertido por tudo o que tinha descoberto. – Eu sei que não tenho amigas normais podes dizê-lo! Mas se contas a algum deles, eu desminto!

-E tu tinhas alguma alcunha para mim?

-Não. Sempre foste o Fábio e sempre serás.

-E tinhas alguma coisa assim como as tuas amigas?

-Não te digo! Fica guardado no segredo dos deuses. – Fechou a boca e tentou simular que a fechara com um fecho e mandara a chave para longe.

-Diz, diz, diz, diz. – Disse dando beijinhos no pescoço de Rita tentando demovê-la.

-Eras só tu! E não tinhas alcunhas.

-E não me queres arranjar assim uma alcunha divertida?

-Chato! Não páras de me melgar, bolas! – Cruzou os braços e fingiu ficar chateada, mas apenas por breves instantes, ele olhou-a e ela não conseguiu conter o sorriso.

-A tua mãe já sabe se é menino ou menina?

-Não. O meu irmão mais pequeno, decidiu ser teimoso e não se quis deixar ver. Mas eu desconfio.

-Por acaso, também desconfio do sexo dele!

-Então vamos dizer ao mesmo tempo!

-3,2,1. – Disseram em coro.

-Menina! – Disse Rita.

-Menino! – Contrariou Fábio. – Vais ter mais um mano para jogar á bola, vais ver!

-Vou ser uma menina, e vai ser uma verdadeira Bratz, muito feminina mas que também gosta imenso de desporto, principalmente de futebol!

Continuaram a trocar ideias sobre o sexo do bebé, enquanto ela estava convencida que iria ter mais uma irmã, já Fábio tinha um pressentimento que era um rapaz. O nome ainda não estava decidido, embora já houvessem algumas ideias trocadas.
O resto da viagem decorreu muito divertida e entre muita conversa, não só com Fábio, mas com os colegas e amigos dele, ficou a saber muitas histórias sobre o seu amigo, a viagem correu sem problemas e demoraram pouco mais de quatro horas a regressar. Quando regressaram, despediram-se de todos, e começaram a percorrer o caminho até às suas casas. Ele estacionou o carro na garagem, e subiram o prédio até chegar ao corredor que separava as casas.

-Fábio apesar de estares cansado, anda beberes e comeres qualquer coisa lá a casa.

-Deixa-te estar, aproveita o que resta deste dia especial com a tua família…

-Senão vieres eu chateio-me!

-Estou a ir! – Ficaram frente a frente e ele deu-lhe um beijo na testa.

-Posso pedir-te dois favorzinhos antes?

-Não achas que estás a abusar? – Perguntou Fábio sorrindo, claramente brincando com a aniversariante.

-Tens sempre a opção de não fazeres.

-Estou a brincar, coisa boa! Diz-me!

-Queria pedir-te para em primeiro lugar, me dares um beijo. – Fábio não a deixou terminar e beijou-a.

-Feito! – Agarrou na mão dela e apertou-a. – Um dia serás tu a beijar-me!

-Quem sabe! – Respondeu pouco convencida. – Em segundo, queria pedir-te para não contares a ninguém, muito menos á minha família, nada do que se passou. Nem dos nossos 
beijos, nem nada… Disto que se passa entre nós, pode ser?

-Respeito isso e não o farei, mas os teus pais vão desconfiar. Tu sabes disso.

-Deixa estar que eu dou-lhes bem a volta! – Fábio já tinha declarado o que sentia aos pais de Rita, mas não lhe iria dizer. Iria respeitar a decisão da amiga, sabia que era demasiado cedo, mas por outro lado também o magoava. Sentia que ela não se orgulhava dele. Por muito que se esforçasse, ele não conseguia compreender todas as decisões dela. Tinha viajado até Braga, no dia dos seus 18 anos para estar com ele e não queria assumir o que se havia passado? Ele não entendia e não conseguia arranjar uma justificação, ela começava a revelar uma faceta que ele não conhecia.
Rita abriu a porta de casa e caminhou lado a lado com Fábio, até chegar á sala. A luz do corredor estava acessa, o que significava que ainda estavam acordados. 


-Parabéns! – Gritaram os depois de Rita acender a luz da sala. Estavam presentes os irmãos, os pais, a sobrinha, o cunhado e o amigo Pedro. Estavam todos ao redor da mesa, onde estava bem presente o bolo de aniversário.


Rita foi completamente surpreendida, tinham-lhe preparado uma festa surpresa e ela nunca tinha pensado, nem tinha imaginado que o fariam. A família toda estava ali pronta para festejar a sua maioridade, e os seus dois melhores amigos tinham sido convidados. Apesar de manterem uma relação pouco boa, ela esperava apenas que fizessem um esforço para se darem, não só naquela noite mas como para a vida, por ela. Começaram por cantar os parabéns e ela agradeceu a todos, por aquele momento de união e felicidade, com ela, mas também por estarem presentes na sua vida. Cumprimentou todos enquanto distribuía o bolo e deu um beijo á afilhada que dormia pacificamente e apresentou-a a Pedro.

-Tenho uma coisa para te dar, pequena! – Disse Pedro depois de conhecer Diana e ficando claramente deliciado com a pequena que ainda nem tinha completo um ano de vida. – Como prenda de aniversário e para te agradecer por estares na minha vida, é claro! – Ela sorriu, feliz e agradecida por aquele dia de felicidade que há tempo não vivia, Fábio á distância, olhava para tudo, feliz pela felicidade dela mas com ciúmes, tentando ao máximo controlá-los.

-Não era preciso! Mas obrigada! – Abraçou-o e ele retribuiu o abraço, com força. Tinha saudades dos momentos de amizade, de companheirismo e dos momentos que tivera ao lado dela.

-Mãe, eu e o Pedro vamos ao quarto para ver a prenda que ele tem para mim.

-Também quero ir para ver a tua reacção!

-Eu também vou! – Acrescentou o pequeno Pedrito.

-Vamos todos! – A irmã apresentou-se também á conversa.

Foram todos até ao quarto de Rita, inclusive Fábio que era o último de todos, que transportava a pequena Diana que dormia nos seus braços. Ela abriu a porta do quarto e a primeira coisa que lhe saltou á vista foi a prenda de Pedro. Aquele ramo de flores, era realmente surpreendente! Aproximou-se dele e tentou pegar-lhe. Pedro aproveitou o momento para fotografar a sua amada e a prenda que lhe dera.

 Como irá agradecer Rita?
Qual será a reacção de Fábio? Como irá ficar a relação entre ele e Pedro?

domingo, 20 de julho de 2014

Capítulo 21: “I Love You”



Rita tinha receio, receio do que o futuro lhe reservava, receio do que Fábio poderia sentir por si e do que ela sentiria por ele, tinha uma série de questões na cabeça e não sabia o que responder a nenhuma.

-E se eles não gostarem de mim?

-É impossível que não gostem de ti.

-É super natural que não gostem de mim.

-Se fosse a ti não acreditava muito nisso.

-Porque dizes isso?

-Porque já falei de ti e eles estão ansiosos por te conhecer!

-Tu falaste de mim á tua equipa?

-Sim! Como era possível não falar? - Rita apertou-lhe a mão e fixou os seus olhos nos dele. – E acredita que só falei bem, era difícil falar mal de ti! – Rita corou e desviou o olhar, Fábio já sabia que ela estava envergonhada. Ela respondeu:

-Tu tens noção que não vou conseguir olhar para nenhum, não tens? – Disse pousando a mão sobre a de Fábio e ele limitou-se a fechar e a apertá-la.

-Ótimo! Assim só tens olhos para mim! – Rita sorriu e olhou para Fábio, que lhe pousou os lábios sobre a testa dela onde a beijou.

-Enganaste-te! Os meus lábios estão mais em baixo!

-Oh. Desculpa! – Olhou para Rita e beijou-a como tinha acontecido no primeiro beijo, com paixão, com amor e com carinho, gostavam muito um do outro e apesar de não saberem ao certo o que sentiam, sabiam que quando os lábios se cruzavam eram como se saltassem faíscas, era como se uma parte incompleta se completasse. Só separaram os lábios quando o ar começou a escassear.
Separaram as mãos e foram em direção ao autocarro, estavam todos dentro do autocarro á exceção do mister que descia as escadas para ir procurar o rapaz e a amiga.

-Finalmente rapaz, onde te meteste? – Perguntou o mister e Rita baixou a cabeça.

-Desculpe mister, alguns adeptos pediram fotografias e autógrafos e eu não os podia desiludir.

-Pronto estás desculpado! – Fábio ia entrar no autocarro, mas o mister não o deixou entrar. –Apresenta-me lá a causa do teu sorriso! – Rita corou e apertou fortemente a mão de Fábio.

-Mister. Apresento-lhe a Rita, a minha princesa. – Rita aproximou-se de Hélder e cumprimentou-o com dois beijinhos. – Rita como tu sabes. – Sorriu. – É o meu mister Hélder.

-Muito prazer. – Respondeu baixinho.

-O prazer é todo meu Rita. – Respondeu a sorrir. –Mas agora toca a entrar para o autocarro que está tudo á vossa espera.

O primeiro a entrar para o autocarro foi o mister, depois Rita pediu que fosse Fábio e ele aceitou, deu-lhe a mão e ela tentava ao máximo passar despercebida mas era difícil, era a única rapariga no meio de tantos rapazes e sabia que todos os olhos estavam caídos sobre si, até porque os colegas dela já tinham ouvido falar de si.
Ela caminhava de cabeça baixa a olhar para os pés dele e parecia que aquele caminho fora tão curto que a assustava, todo o seu corpo tremia e não sabia como iria reagir ao pé de todos aqueles amigos e colegas de Fábio. Ouviu uma voz grave a dizer:

-Então que andaste a fazer matumbo?

-Fui á procura do último frango que deixaste entrar. – Respondeu Fábio aquela voz, pelas palavras teria sido ao guarda-redes, Bruno Varela.

-E não nos queres apresentar quem está aí contigo oh burro?

-Que eu saiba não sou eu que tenho a alcunha de Bernas, seu paneleiro. – Bernardo Silva, entendeu de imediato Rita. Apertou ainda mais a mão dela e fê-la ficar á sua frente, que limitou-se a baixar a cabeça e ficar com as bochechas tão encarnadas como nunca tivera antes. –Vocês já devem ter ouvido falar muito da Ritinha, como é óbvio.

-Não sabes falar de outra coisa... – Ergueu um pouco da cabeça e conseguiu perceber que era Hélder Costa que falava.

-Não vêm que estão a deixar a rapariga envergonhada? Deixem-se lá disso seus palermas. – Rita ergueu a cabeça e olhou para aquela voz. Claramente era um grande amigo de Fábio, João Teixeira. Não esperava, mas sorriu, não conseguiu esconder o sorriso. Fábio começou a caminhar e sentou-se num banco e Rita sentou-se ao lado, ficando ele do lado da janela.

-Obrigada João! – Acomodou-se ao seu lugar. – Queres vir para o lado da janela?

-Deixa estar! – Rita não se importou com a forma “pouco simpática” com que Fábio e os seus colegas se haviam tratado, já sabia que era esta a forma natural com que se tratavam.

-Não te assustes. É esta a forma carinhosa com que nos tratamos.

-Se tu me tratasses assim, te garanto que nem falava contigo!

-As princesas não se tratam assim, só os monstros como eles! – Disse dando-lhe um beijo na testa.

-Oh que fofo! – Disse Bruno Varela com as mãos pousadas sobre o banco e olhando para eles. – Por acaso sabes que os pés do Fábio parecem pés de ogre não sabes?

-E que ele é maricas não sabes? – Disse Bernardo virando-se para os bancos de trás, olhando para Rita e Fábio.

-E vocês são piores que as velhas coscuvilheiras! – Respondeu Fábio. – Não têm mais nada para ver, nem para fazer?

-Queríamos só avisar a Rita do que a espera. –Ela baixou a cabeça envergonhada e corou. Eles viraram-se para a frente e Fábio olhou-a.

-Ai que vergonha Fábio! -  Disse pousando as mãos sobre os olhos e pousando a cabeça sobre o peito do amigo.

-Não lhes ligues Rita! Eles têm é inveja porque ao menos conheço uma rapariga, eles nem por isso. – Disse pousando a mão sobre as costas da amiga. 

-Tenho tanta vergonha Fábio! Não devia ter vindo. – Olhou para ele, e ele retribuiu olhando para ela de forma carinhosa. Aproximou os seus lábios dos dela e voltou a cruzá-los. Beijaram-se com todo o amor e carinho.

-Senão tivesses vindo não te teria beijado! – Ela encostou-se ao peito dele e todos os olhos estavam pousados sobre eles.

-Faziam melhor figura se cantassem os parabéns, em vez de olharem.

-Fazes anos hoje? – Perguntou Ivan Cavaleiro.

-Sim... Dezoito. – Respondeu-lhes pela primeira vez mas claramente pouco á vontade.

-Seu pedófilo Fábio. – Disse João Cancelo. –Ela ainda era menor e tu já tinhas segundas intenções.

-E tu que não opinasses! – Respondeu Fábio. – Que eu saiba a tua namorada ainda não deve ter dezoito

-Mas isso é diferente, nós estamos juntos há muito tempo.

-E quem é que te disse que eu e a Rita também não vamos ficar juntos muito tempo? – Rita silenciou-se, ele tinha-se declarado indiretamente e ela não sabia o que dizer. Todos se afastaram e Rita olhou para Fábio que disse. – Trouxeste a ventoínha contigo?

-Sim, trouxe. – Abriu a mala e mostrou-a. – Porquê?

-Podes ligá-la? – Rita abanou positivamente a cabeça e pô-la a funcionar. Bastaram apenas uns segundos para verem a mensagem da ventoínha. Dizia “I Love You” (Eu amo-te) e ela corou, tinha de lhe responder, mas não sabia o quê, a sua salvação foi o telemóvel que tocou, pegou nele e atendeu sem olhar para ver quem era:

-Olá! – Respondeu á chamada.

-Olá filhinha! – Disse a sua mãe. –Nunca mais disseste nada e eu fiquei preocupada.

-Desculpa, tive um bocadinho com o Fábio no intervalo, mas já estou a caminho de casa.

-Conseguiste despedir-te do Fabiozinho? – Rita sorriu.

-Não, por acaso não. Ele convidou-me para vir com ele no autocarro.

-E tu aceitaste? Deves ser a única rapariga aí!

-Sou mesmo! E estou com alguma vergonha, mas espero que passe!

-Eles não são nenhuns bichos papões, não te fazem mal!

-Que querida! Que eles não são nenhuns bichos papões, sei eu, mas sabes quantas raparigas pagavam para estar aqui? – Fábio sorriu a ouvir a conversa.

-Então aproveita! Quando chegares cá vais ter outra surpresa!

-A sério mãe? Obrigada!

-Sim! São os teus dezoito anos, a tua maioridade, não poderiam ficar em branco.

-Fico sem saber o que dizer! Como estão todos por aí?

-O teu pai e irmão estão na brincadeira e mandaram-te um beijinho. Eu e o bebé estamos sossegados.

-Sabes qual é o sexo dele?

-É o meu quarto filho e é o único que decidiu esconder o sexo.

-Também foi a maior surpresa de todos, de certeza!

-Depois deste bebé, fecho a loja, já não tenho idade nem energia para isto. Mas pronto, aproveita este dia que nós vamos ter com o teu irmão e pai.

-Está bem mãe, manda-lhes beijinhos meus e do Fábio que também está a mandar. Até logo! – Desligaram a chamada e Rita tinha de lhe dar uma resposta mas não sabia o que dizer.

Que irá responder Rita?
Como correrá o resto da viagem? Qual será a surpresa da família dela?

sábado, 14 de junho de 2014

Capítulo 20: “Estou disposto a correr esse risco e tu?”


Era o momento mais bonito que estavam a viver juntos e estavam a tentar desfrutá-lo. Sentiam o coração do companheiro a bater e a felicidade bem presente no rosto da outra pessoa, existia uma paz natural nos corações de cada um. E Fábio sabia que era o momento ideal para partilhar o que sentia, sempre tivera medo do momento em que assumia o que sentia, tinha medo que o sentimento não fosse recíproco, que ela se afastasse dele e no fundo de a perder. Mas tinha de arriscar, podia perder tudo mas também podia ganhar tudo.

-Fábio, talvez seja melhor voltarmos. Os meus pais já devem estar á minha espera. – Ele sabia que ela tinha razão e que para ganhar a confiança dos pais da sua amiga tinha de cumprir o que prometera, mas era muito forte o desejo que sentia de prendê-la nos seus braços e não mais largá-la, queria poder ficar ao lado dela até aos últimos dias da sua vida.

-Rita, por favor, só mais um bocadinho. Suplicou Fábio e Rita não conseguiu resistir.

-Mas é mesmo só mais um bocadinho, sabes que o meu pai está á minha espera. – Disse pousando novamente a mão sobre o peito de Fábio que a agarrou as mãos e olhou para ela.

-Só falta uma coisa para tornar este momento perfeito. – Encheu-se de coragem e disse-o, Rita olhou para ele que sorria e perguntou:

-E porque não o tornas perfeito? – Perguntou envergonhada mas com coragem de dizer tudo o que sentia e de se sentir ainda mais realizada.

-Porque não sei se também o queres.

-Eu confio em ti Fábio. – Disse pousando a mão sobre os cabelos secos mas brilhantes dele.

-Tens a certeza? Tu nem sabes o que vou fazer.

-Faço uma pequenina ideia. E sinceramente, não preciso de saber, tal como te disse confio em ti.

Os olhos de ambos brilharam e foi Rita quem tomou a iniciativa de cruzar os seus dedos com os de Fábio dentro de água. Fábio sabia que o que iria fazer podia estragar aquela amizade, podia deixar a amiga desiludida ou magoada, podia afastá-la de si, mas estava disposto a arriscar, afinal ela permitia-o, fora ela que o incentivara-o a fazer, embora não soubesse ao certo o que ele iria fazer.

Fábio aproximou os seus lábios da face de Rita, pousou a mão esquerda sobre a bochecha dela que fechou os olhos sentindo o doce toque do amigo na sua face, aproximou os seus lábios dos dela e respirou durante breves segundos e beijou-a como desejara há imenso tempo, como nunca desejara beijar ninguém.
E Rita nunca hesitou, nunca temeu e sempre confiou em Fábio, deixou-se beijar e sentir todas aquelas sensações únicas, faziam-na ter ainda mais certeza do que sentia por ele. Estava apaixonada. E aquele beijo causara-lhe uma felicidade inexplicável, sentia-se amada como não sentia desde o final de relação com Tiago.

E Fábio sentiu o que nunca havia sentido antes, uma felicidade a sair pelo seu coração de forma inexplicável, uma vontade de não mais soltar Rita dos seus braços, de fazê-la apenas a única mulher da vida dele. Ela era a sua felicidade, o seu porto de abrigo, o seu porto seguro, uma mulher surpreende apesar da tenra idade.
As bocas só se separaram quando o ar começava a escassear, e parecia nada os querer afastar, não queria mais largar-se, nunca mais se afastarem e ficarem unidos como um só. Rita pousou a cabeça sobre o peito de Fábio e as mãos nos ombros dele, que retribuiu o gesto pousando as mãos sobre as costas de Rita e a cabeça sobre a cabeça dela e com a voz meio-rouca e grave disse:

-Sem dúvida que tornaste este momento perfeito. – Disse sorrindo e olhando para o nascer do sol cada vez mais forte.

O momento era magnífico e queriam torná-lo eterno mas Fábio sabia que para conseguir voltar a desfrutar de um momento assim precisava de continuar a manter a confiança dos pais de Rita, por isso foram até ao carro, de mãos dadas e durante a viagem, e para irromper o silêncio que existia no carro, Fábio falou:

-Rita, precisamos de falar sobre o... beijo, de há pouco. – Disse com um sorriso na cara, bem ciente da felicidade que aquele simples beijo lhe dava.

-Sim, mas não o vamos fazer agora. -  Disse enquanto Fábio entrava na garagem para estacionar o carro. –Tu tens de ir descansar mais um pouco antes de ires para a concentração e eu preciso de ir tomar banho para depois ir para a escola. – Fábio não sabia descodificar o que ela sentira em relação ao beijo, sentia-a distante, quase que a afastar-se dele e os maiores receios dele confirmaram-se, estava a perdê-la.

-Não queria estragar o teu aniversário com isto, desculpa se o fiz.

Rita nada respondeu, limitou-se a sair do carro, dar-lhe um beijo de despedida e a voltar para casa e para Fábio era um pesadelo a tornar-se realidade. Iria perdê-la, estava a perdê-la, não a deveria ter beijado, estava a perdê-la por sua própria (ir)responsabilidade. Deu um murro na parede e foi até casa, onde arrumou alguns pertences e arrancou até ao Centro de Estágios, ainda era cedo, mas queria apenas sair daquele local que só lhe trazia recordações de Rita, embora soubesse que até o mais pequeno pormenor da natureza, a trazia a recordação cada vez mais a amada.

E Rita sabia muito bem porque não tinha conversado durante a viagem de carro, porque tinha evitado a conversa com Fábio e porque estava distante na conversa que tivera com ele, tudo tinha uma justificação. Sabia que se sentia feliz ao pé de Fábio como não se sentia ao pé de mais ninguém, sabia que ele a fazia sorrir e encarar a vida com outra perspectiva, que ele a fazia tirar os pés no chão e a colocava nas nuvens, sabia como ninguém que se estava a apaixonar e queria apenas afastar-se... Mas em simultâneo aproximar-se. Queria poder beijá-lo, dizer o que sentia por ele, tocar-lhe, serem feliz em sintonia, mas tinha medo. Medo que ele a usasse apenas como conquista, que a magoasse, que ferisse os seus sentimentos e partisse o coração. E ela não conseguia limitar-se a viver mais um desgosto amoroso. Entrou em casa e foi pousar as prendas ao seu quarto,  de seguida foi até á casa de banho, despiu-se e entrou na banheira, tomou um banho bastante longo e quando saiu de lá estava com a consciência tranquila, tinha de falar com Fábio e conhecia-o tão bem que sabia ver se os seus interesses eram verdadeiros ou não, depois foi até ao quarto onde se vestiu, preparada para mais um dia de escola. Enquanto preparava a mala da escola a mãe entrou no quarto e disse:

-Bom dia Rita! – Cumprimentou-a com dois beijos. – Como correu a noite? – Rita procurava os livros da escola para os colocar na mala. – Que estás a fazer?

-Correu bem mãe, mas não quero falar sobre isso, estou sem cabeça para conversar e só com vontade de descansar.

-Tens a viagem toda para descansar!

-A escola não é assim tão longe, mãe.

-Que eu sabia a tua escola não é em Braga!

-Braga? Não acredito que vocês me deixam ir...  – Deu um abraço á mãe e um beijo na testa. –Obrigada, obrigada mãe! – Encheu a cara da mãe de beijos e quando acabou foi ter com o pai á cozinha, abraçou-o e apenas conseguia dizer... – Obrigada pai! De coração! É a melhor prenda que me podiam ter dado!

-Bom dia também para ti filhinha! E já agora parabéns! Mas não te esqueças que é uma prova de confiança que te damos deixar-te ir para Braga. – Disse o pai abraçando também a filha.

-Que é que a mana vai fazer para Braga? Também posso ir? – Perguntou Pedrito que estava sentado á mesa comendo os seus cereais de pequeno almoço. Rita sentou-se ao seu lado e respondeu.

-Tu hoje tens escola Pedrito. Não podes faltar. – Informou a irmã despenteando-lhe o cabelo.

-Mas tu também tens aulas e vais faltar!

-Mas não devia!

-Também quero ir! – Reclamou Pedro. – Quero ir para Braga com a mana!

-Por acaso sabes o que vou lá fazer?

-Vais ver o jogo do Fábio. Os pais disseram e eu também quero ir!

-Mas sabes que hoje é o aniversário da mana? E a mana quer ir surpreender o Fábio!

-Se são os teus anos, ele devia ficar cá e não devia ir para longe! Devia dar-te prendas e cantar-te os parabéns e fazer uma festa ao pé de ti.

-Ele já me deu prendas e já me cantou os parabéns. Só não trouxe bolo porque ficou em casa dele. – Disse surpreendendo os pais e até o próprio irmão. – Ele não canta muito bem mas o que importa é a intenção. E deu-me tantas prendas que nem imaginas Pedrito!

-Posso ir ver?

-Quando acabares os teus cereais!

Estavam todos curiosos para ver as prendas, em especial Pedrito que acabou por adorar, em especial, os autocolantes que achou bastante divertidos e conseguiu ficar com alguns, convencendo a irmã que iria dar aos colegas de turma e também com as pantufas que garantiu que mal apanhasse a irmã distraída os iria alcançar, apesar de lhe ficarem bastante grandes.

Depois de abrirem as prendas, foram até á cozinha e acabaram de tomar o pequeno-almoço mas á pressa, Rita tinha de ir apanhar o comboio e a família iria com ela até á estação. A caminho da estação a mãe disse:

-Filha não te estás a esquecer de nada? – Disse enquanto atravessavam a ponte em direção a Lisboa.

-Esqueci-me do cachecol do Benfica sim!

-Não precisas do cachecol depois desta prenda! – Esticou o braço e deu um saco do Benfica á filha. – Tenho a certeza que vais gostar e ele também!

Rita abriu a prenda e os seus olhos brilharam como estrelas brilhantes, e o sorriso estava bastante presente nos seus lábios, um sorriso bastante genuíno e verdadeiro. Nunca tivera um equipamento completo do Benfica, nem nunca tinha tido uma camisola só sua e os pais ofereceram-lhe e com um grande pormenor que a deixou ainda mais radiante. A camisola tinha escrito o número “65” e o nome “F. Cardoso”, que era o nome e o número que Fábio envergava quando jogava.


-Obrigada, obrigada, obrigada! – Disse sorrindo e dando dois beijinhos aos pais e mexendo e observando aquela camisola que era sua e que de certo, deixava Fábio orgulhoso.


Vestiu a camisola e estava-lhe um pouco grande, tal como gostava! Ficou super feliz e era notório, foi claramente uma das melhores prendas que já lhe tinham dado.

-Mana, juntei algum dinheiro que os pais me deram e consegui comprar-te uma prenda! – Rita estava a ter um dia feliz, um dia cheio de surpresas boas, como não tinha há muito.

-A sério Pedrito? Não era preciso obrigada! – Disse dando um abraço ao irmão.

-Senão quiseres eu fico com elas!

-Pedro! – Disse a mãe. – Dá á tua irmã e depois quando quiseres ela empresta-te pode ser Rita?

-Claro! – Pedro deu-lhe a prenda que Rita adorou, não pelo objeto em si mas pela intenção.


Quando chegaram á estação, o comboio já lá estava e não demorava a partir, mas a mãe não a deixou ir sem alguns últimos recados:

-Quando chegares, diz alguma coisa, e depois vais almoçar e não te esqueças pelo caminho de comeres qualquer coisa também. Ontem pus-te 20€ na carteira e se for preciso tens dinheiro no multibanco, senão tiveres eu trato já de transferir. E quando tiveres o bilhete e tiveres a entrar diz-me alguma coisa, e no intervalo também. No final do jogo liga-me para dizer como ficou e qual foi a reação dele! – Deu todas as recomendações que se lembrava.

-Mais alguma coisa mãe? – Disse sarcasticamente, a mãe bombardeara-a de informações e de recados, que Rita tentava decorar mas sabia que era pouco provável lembrar-se de todos.

-Sim! – Respondeu sorrindo. – Porta-te bem, diverte-te e namora muito. – Piscou o olho.

-Eu e o Fábio somos só amigos.

-Sim, está bem... – Respondeu a mãe pouco convencida. –Um último beijinho e um abraço filhota! – Disse dando-lhe um beijinho e apertando-a nos seus braços.

-Disseste isso as últimas quarenta vezes.

-Pelo menos... – Respondeu o pai. – Eu e o Pedro também nos queremos despedir!

-Mas eu e o bebé estamos primeiro! – Disse a mãe queixando-se e separando-se da filha e deitando uma lágrima teimosa. Rita sorriu, limpou a lágrima da mãe e disse.

-Não chores, eu ainda hoje volto e vais ver que nem vais dar pela minha falta!

-Ainda no outro dia nasceste e hoje já fazes 18 anos, claro que estou a ficar velha. – Disse com mais uma lágrima a cair-lhe do olho. – Vais ter com um digamos... Amigo. E eu e o teu irmão vamos ficar aqui sozinhos. Ainda por cima vou saber se é um menino ou uma menina.

-Tens a Ana, a Diana, o Pedrito e o pai. E se te sentires sozinha, liga-me que vou tentar quebrar essa barreira dos quilómetros, nem dás por nada!

O comboio estava quase a partir, e Rita teve de despedir-se á presa dos pais e do irmão e partir a correr para o comboio para não o perder. Procurou o seu lugar que era marcado e sentou-se ao pé de uma rapariga que aparentava ser pouco mais velha que ela.

-Olá. – Respondeu antes de se sentar. – Desculpa o meu lugar é aqui, penso eu. Posso sentar-me?

-Olá! – Sorriu. – Estás a vontade querida, assim já tenho companhia para esta viagem e já não apanho uma seca até Braga!

A sua companheira de viagem chamava-se Teresa e tinha 20 anos, estudava enfermagem em Lisboa e faltavam-lhe apenas uns meses para concluir o curso, namorava á distância, porque o seu namorado trabalhava em Braga. E ia ter com o ele, para lhe dar uma boa notícia, embora inesperada. Estava grávida. Rita ficou surpreendida mas feliz, felicitou-a e acabaram também por conversar até ao final da viagem. E Rita contou também um pouco da sua história de vida, e em especial da história com Fábio. A rapariga aconselhou-a, a escutar o coração, deixar de parte os problemas que a cabeça poderia arranjar e confiar apenas em Fábio, porque além de qualquer outro sentimento, existia uma amizade. E se for preciso, desabafar com ele sobre os seus medos, receios e sentimentos melhores ou piores. E Rita ficou bastante agradecida pela sugestão e pelo gesto de amizade, e entre brincadeiras  também lhe mostrou as prendas que ele, entre elas a ventoinha, que despertava mais curiosidade, queriam saber qual era a mensagem, mas o mais acertado era esperar.

Quando chegaram a Braga, era hora de almoço, por isso decidiram ir aproveitar para conversar mais um pouco e optaram por ir almoçarem juntas. Depois trocaram números de telemóvel e tiveram de se despedir, Teresa tinha de ir surpreender o namorado e Rita tinha de ir comprar os bilhetes do jogo e assistir ao encontro. Queria estar o máximo de tempo possível perto de Fábio, nem que fosse longe, queria poder olhá-lo, admirá-lo e sentir-se nas nuvens, pois era assim que ele a fazia sentir.

Demorou pouco mais de 20 minutos a chegar até ao estádio e quando chegou, comprou o bilhete. As portas já estavam abertas, faltavam pouco mais de 30 minutos para o inicio do encontro. Entrou e vestiu a camisola que os pais lhe tinham oferecido, e sentou-se o mais próxima possível do campo. Os guarda-redes do Braga já aqueciam, e entrou depois a restante equipa. Mais tarde entraram os guarda-redes do Benfica e os jogadores, e Fábio estava a aquecer juntamente com todos. Ele seria titular. E não conseguiu esconder o seu sorriso de felicidade, e de orgulho. Não conseguiu tirar os olhos dele, não conseguiu parar de pensar nele. Era o dia em que comemorava 18 anos, e tinha feito mais de 300 quilómetros para estar com Fábio. E por diversas vezes tinha ficado com a ligeira impressão que ele tinha olhado para si. E isso fê-la corar.

O Benfica chegou tranquilamente ao intervalo a ganhar por 2-0, golos de Funes Mori e as equipas iam para os balneários, mas Rita inspirou fundo quando Fábio estava a entrar com os colegas:

-Fábio! – Gritou e ele olhou para a zona onde ela estava e arregalou os olhos e sorriu. Começou a correr e aproximou-se de Rita,  tinham apenas um muro de um metro a separá-los. –Parabéns pelo jogo, meu príncipe!

-Rita... – Disse ainda ofegante e claramente surpreendido por vê-la. – O que é que estás aqui a fazer?

-Não consegui estar um dia sem ti, e não um dia como este. – Como estava em cima da bancada, conseguiu dar-lhe um beijo na testa, de seguida saltou e voltou a ficar mais baixa que ele. E ele continuava sem saber como reagir.

-Obrigada... – Disse envergonhado.  – É o teu aniversário e tu abdicaste do teu dia para estar aqui... Por minha causa?

-Sim, Fábio! – Disse sorrindo. – Podes-me tocar á vontade, sou mesmo eu, Rita Madeira! – Sorriu. Fábio abraçou-a e sussurrou:

-É o teu aniversário e tu é que me surpreendes! Obrigada por fazeres parte da minha vida, Rita! – Ela foi apanhada desprevenida mas quando sentiu os braços dele no seu corpo abraçou-o também. No túnel de acesso aos balneários apareceu um senhor que gritou:

-Fábio estás a fazer o quê? Anda para dentro! – Fábio e Rita olharam para aquele senhor e separaram-se.

-Desculpa pequena, tenho mesmo de ir. – Deu-lhe um beijinho na testa. –Obrigada por tudo! – Sorriram. – No final vai ter comigo sim? – Estava a virar costas a caminho daquele homem, quando Rita o agarrou pela mão e ele virou-se para ela. Aproximou-se de Rita, fixando apenas os olhos, e ela juntou os lábios. Foi apenas um encosto de lábios, mas fora bom, deixara-os com um sorriso nos lábios e felizes juntos, como não eram em separado. Bastava apenas conhecerem-se para se sentirem felizes, mas nada os deixava mais nas nuvens que o outro. 

Sorriram e ele foi embora para junto dos colegas, Rita sentou-se nas bancadas e a única coisa que conseguia pensar era nele, naquele beijo, na mudança que tinha existido na sua vida desde que o conhecera, o quanto ele tinha mudado... Por si. E o quanto gostava dele, de uma forma que nunca pensara gostar. Sorriu e acabou por perder os primeiros minutos da segunda parte do jogo, perdida em pensamentos, mais concretamente em pensamentos com ele.

Algumas pessoas aproximaram-se dela, para lhe pedir a camisola de Fábio, para lhe pedir um autografo dele ou para lhe dizer que tinha uma fã ali, ou uma fotografia, e Rita respondia a toda a gente com uma enorme simpatia característica, e apenas dizia que iria tentar. Não queria maçar Fábio mas também não queria desiludir as pessoas. Mas também depois de alguns pedidos, palavras de apoio para o jogador e também de uma pergunta mais desenvergonhada se namoravam, as pessoas acabaram por se afastar naturalmente e desfrutar do restante jogo. E acabou com uma vitória tranquila do Benfica B, por 3-1, dois golos de Funes Mori e um de Bernardo Silva. 


E Rita acabou por sair das bancadas, e ir até junto da saída dos jogadores, mas não a deixavam aproximar-se demasiado, nem aos adeptos que estavam ao pé de si. Por isso esperou e esperava ansiosamente que Fábio fosse ter com ela. 
Pegou no telemóvel e ligou-lhe. Não atendeu, por isso não insistiu. Talvez tivesse no banho ou não pudesse atender. Aguardou mais um pouco.

E aproximaram-se três raparigas entre os dezasseis e os dezoito anos daquela saída, e começaram a conversar sobre os jogadores mais bonitos, esquecendo-se do mais importante. O talento puro e nato, o esforço que depositavam em campo, e nos treinos e a garra que demonstravam. Estavam simplesmente a comentar a aparência dos jogadores, em especial do Benfica, porque diziam ser benfiquistas. E com a pontaria que tiveram, acabaram por conversar sobre Fábio, e Rita ouvia com atenção, todos os pormenores que elas diziam, tudo o que diziam e tentava acalmar-se. Limitavam-se a apreciá-lo pela beleza, e ele tinha muito valor interiormente, era um rapaz dono de um grande coração, simples e que valoriza e cuida dos seus amigos. E respirou fundo a primeira vez, a segunda vez, a terceira vez. E acabou por dizer:

-Desculpem lá. – Olhou para as raparigas. –Vocês vieram ver o jogo ou foi para olhar para os rapazes, em especial para o Fábio? – Ambas olharam para Rita surpreendidas e cochicharam entre si, e ninguém conseguiu entender a não ser elas.

-Rita... – Estava de costas para a cancela de onde sairiam os jogadores até ouvir aquela voz. Aquela voz que conhecia como ninguém. –Ligaste-me? – Rita virou-se e encarou Fábio, não estava á espera que ele aparecesse e que ouvisse o que ela dissera as raparigas.

-Sim, queria saber de ti. – Embora não estivesse a ver as raparigas imaginava-as cheias de ciúmes e inveja e um sentimento de vingança apoderou-se de si. –Parabéns pelo jogo! – Aproximou-se dele e deu-lhe um beijinho na bochecha.

-Obrigada princesa! – Deu-lhe um beijo na testa. – Vinha chamar-te para ires no autocarro comigo e com o resto do plantel.

-A sério? – Os olhos dela brilharam. – E não há problema de certeza?

-Não! O mister e os meus colegas até querem conhecer-te!

-Que vergonha Fábio! Posso só pedir-te então para dares autógrafos aqui fora senão te importas?

-Claro que não.

Aos poucos os adeptos aproximavam-se de Fábio e pediam fotografias e autógrafos, e até a camisola mas ele respondia que não tinha nenhuma que pudesse dar e a primeira que daria seria para uma adepta muito especial a sua fã número 1. Referia-se a Rita, mas ela não entendera e por momentos sentiu ciúmes daquela pessoa, de quem ele falava com um sorriso na cara. Aproximou-se um adepto, já adulto, que aparentava ter entre os trinta e os quarenta anos, e pediu uma fotografia com Rita e Fábio e ela embora reticente acabou por aceitar e depois de um autografo acabou por lhe dizer:

-Parabéns pela namorada Fábio! Para além de bonita é boa pessoa! – Rita sentiu as suas bochechas ficarem rosadas como nunca antes tinham ficado e ficar sem palavras, e ele respondeu.

-Muito obrigada! Sem dúvida que tive muita sorte de a ter conhecido! – Fábio não o negou, Fábio foi como tivesse concordado que eram namorados, ele elogiou-a em frente a adeptos, ele estava feliz por tê-la conhecido, ele fazia-a sentir-se feliz. Sorriu e entrou pelas cancelas e caminhavam lado a lado, mas ele esticou a mão e agarrou na mão dela, que corou mais uma vez mas não recusou. Começaram a caminhar em direção ao autocarro e Fábio conversou. –O mister e os meus colegas gostavam muito de te conhecer! Já ouviram falar muito de ti e querem conhecer o motivo para o meu sorriso.

-Eu não consigo... Tenho vergonha. – Parou e apertou mais fortemente a mão dele.

-Porque é que não consegues?

-Tenho vergonha. Antes de serem teus colegas de equipa e jogadores do Benfica, alguns são teus amigos e sinto que é um um passo maior que a perna.

Fábio aproximou-se de Rita e colocou as mãos no fundo das suas costas e ela retribuiu-o colocando as mãos no seu peito. Ele beijou-a e ela retribuiu totalmente, tinha sido um beijo tão intenso como o primeiro e quando separaram os lábios ele disse:

-Estou disposto a correr esse risco e tu? – Perguntou olhando para ela mas ainda perdido a olhar para os lábios dela e ela a olhar para os seus. Apesar de não ter sido o primeiro beijo deles continuava com a mesma magia do primeiro, com o mesmo sentimento e emoção, continuava a dar-lhes uma sensação de felicidade extrema, como se tivesse a viver nas nuvens. Mas mesmo assim Rita tinha de pensar numa resposta, se faria a viagem com a equipa e com os treinadores, onde os iria conhecer e ser apresentada como amiga de Fábio, ou se voltaria sozinha para Lisboa, com medo do que envolvesse todos os sentimentos que queria evitar.

O que irá Rita responder?
Que carga formal terá aquela apresentação? O que significara os beijos trocados?